

FARAÓ
TEM UM, NO MEU QUINTAL
Olhava o espaço falava com ele, dava ordens, direcionava seu destino. Era sua vida ,a ocupação do espaço, um castelo aqui, ali uma torre, acolá uma masmorra, sua pirâmide, seu sonho ia rasgando o espaço, como uma nave espacial ela havia sido projetada, nunca nada seria igual, o mundo mudaria a partir dali, o seu mundo.
O tempo, transformara-o em apenas uma unidade abstrata, de saldar dívidas, de pagar contas, de dar comidas a unidades operacionais, pedreiros e serventes, o mundo mudara desde então, não bastava pão e azeite, tinha que ter um radinho de pilhas, tinha que ter coca-cola tinha que ter televisão.
Carregara blocos de cimento, como escravo carregara pedras, em busca de meu horizonte, que a cada dia, era mais distante mais duro, e mais denso, calejara mãos de artista, em busca do concreto, e do seu sonho realizar.
Como uma besta, latas de terra nas costas subi morros, degraus de concreto, a que dei nome de arquibancadas, e o circo mandei construir, era importante ,meus leões um dia iam querer comer, um cristão, como coroinha segui as regras do senhor Jesus, e busquei um caminho justo, tornei-me fã de Eclesiastes.
Penitenciei-me iconoclasta que fui ao maldizer a sorte ou ao destino, a mim concedido, justo e honrado vergastei-me em busca do perdão, de penitente. Mas o horizonte era uma fixação, era uma iconoclastia, era uma imanência, era uma questão de viver o meu direito, ao livre arbítrio.
Via a imperfeição de mim, refletida em minha pirâmide, via minhas falhas e defeitos em minhas paredes, via cada face oculta que um dia tornaria meus fantasmas, meu futuro e justificativas, estampavam minhas paredes me chamei “Barroco” por pura falta de tempo, ou dinheiro para fazer maneirismos, para ser “Rococo” tinha que correr, o tempo me caçava eu era uma presa.
Faraônicamente sonhava pirâmide, audaciosamente construía castelos os quais minha família se perdia dentro, mas para mim, dentro de mim, eram pequenos, pequenas conquistas de um pobre cristão, candidato a sanduíche de leão, blocos de concretos, areia e pedras, os calos amigos cotidianos de minhas insônias, me faziam humilde, a beber cachaça, a feder suor.
Por dez anos como um monge entoei ladainhas, do que era, do que seria, as críticas deixavam marcas em minha alma, mas humilde dizia o tempo é o senhor da razão, e fui crente a acreditar em sonhos, a correr atras de ilusões que um dia seriam cotidianos, mas que na presente data não passava de loucuras, mas aprendera, que loucura era apenas uma coisa fora de seu tempo, ou de lugar, e minha especialidade era andar na contra mão da história.
Por dez anos fui construindo um sonho, fui amontoando espaços, criando dependências, subindo paredes, por dez anos fui o fantasma do castelo, calado fui construindo o que seria minha marca, em uma cidade que nem se dava ao trabalho de ver, ou verificar se valia ou não a pena fiscalizar, construía um castelo sem licença dos órgãos competentes, eles não acreditavam em mim, não acreditavam-me capaz, não se davam o trabalho.
Riamos, eu e meus pedreiros, quando os víamos a rodear nossa obra, a se perguntarem o que faziam aqueles loucos, respondíamos, “Estamos a construir um viveiro para codornas” e minha pirâmide já estava a doze metros de altura, as paredes rasgavam os céus, e ninguém tinha coragem de abordar-me e perguntar, o que eu fazia. Eu o Rasputim do quarteirão, não possuía o abto de dar respostas, ou explicações, me sentia acima da lei, pusera a lei a meu serviço.
Por dez anos a fazer política, a construir imagens de Alcaides, de edires, estava apto a também entender como funcionava seu subconsciente, a prever seus atos, eu conhecia seus movimentos, e antecipava seus gestos, me cansara de fazer política, me cansara de ser humano, mas política é o curso do sucesso, e isto exigia uma observação constante, isto me exigia consciente, eu vivia na terra das artes.
Havia comprometido meu futuro, dez anos atras, quando da decisão de executar o projeto Embu. Passara dez anos, foram sete exposições e dez anos de trabalhos forçados, trabalho de escravos, remamos como remadores romanos, jogamos nosso barco contra o mundo, em uma batalha sem fim, de ser o melhor, ou o maior dos microorganismos com ansiedade de ser Deus. No mínimo um Faraó.
Constatei que o mundo não tinha a vontade de meus sonhos, eram pesadelos sombrios, não continham cor de rosa, não possuíam amanhã, acordei muitas vezes com insônias infinitas, a perguntar quem mudaria, eu ou o mundo, eu mudara muito ,desde a época que tinha que levar tiros para ser razoável.
Foi a muito tempo atras que nos chamaram os “fabricantes de sonhos”, sonhos de Faraós tendem a ser demorados, de tão pesados a memória demora a chamar, memórias de minha terceira vida, jovem revoltado jogava duro, a desconhecer barreiras que humano não derrubaria. Cabeludo sujo, e maltrapilho, me julgava Sansão, por entre os Fariseus, a memória demora a chamar de tão pesadas que são, meus pesadelos.
Naveguei por uma existência inteira, ousado como um Viking, a arrasar casas e coisas, para satisfazer as necessidades, minhas necessidades, de ver-me certo, de ter razão, o mundo deveria se ajustar a mim, meu égo foi rei neste tempo com uma bengala e um sagüi no pescoço, naveguei dez anos por todos os lugares a perguntar, a correr no encalço do Senhor Deus. Eu tinha algumas perguntas a fazer ao dito Senhor. Fiz isto como um penitente ali por volta de minha segunda vida.
Naveguei. Fui marujo de um destino, pré-determinado, um ocaso programado, minha pretensão, meu egoísmo dizia-me certo, eu era o senhor da razão, era navegador do tempo, como um imortal gastei meu tempo, eu me julgava imortal, e como tal me comportava. Gastei toda uma vida sendo Deus, o senhor de meu destino. Acorda-se lógico,! um dia acordei entre grades, eu estava preso, eu suspeito de alguma coisa, eu falava demais, alto demais, eu queria reformar o mundo, o mundo daquela forma, não condizia com meus meros sonhos. Por entre falsários, em meio a vinte presos tive que defecar em público, tive de comer ao lado de um esgoto, a que davam nome banheiro, e por três longos dias, aprendi que a reforma teria que ser mais ampla, que englobarias, novas facetas, minha visão prismara, ao sair por méritos familiares, ofendido e humilhado, saí de minha segunda vida, vesti outras roupas, procurei outro palco.
Assim grotescamente saí de gravata, me sentia um groucho Marx, uma sapiência a serviço de hilário, fui vender BNH, fui viver entre pessoas normais, fui ganhar dinheiro, fui ser normal. Saí a vender moradias, a entrar em casas, a ver pessoas, e suas contas bancárias, e também fui ser pessoa, de preferência normal. Peguei-me jogando xadrez com seres humanos, eu os compreendia e com e com isto eu vendia, fui um grande vendilhão, de templos, foi aí que mais me aproximei das pessoas, mas sabia que eu era um bicho do mato, durante três anos usando gravata, não aprendera dar um nó, sabia ser transitório este meu estado, sabia que uma hora qualquer perderia a pose.
Eu sempre vivera sozinho, sempre acreditara na transitoriedade de minha vida, os maníacos depressivos, são sempre pessoas sozinhas, eu lera por estas épocas o “LOBO DA ESTEPE” e de imediato sentira-me no personagem, um amor acabado, a vida ficara tão vazia que a morte era iminente, queria morrer e acabar com tudo, muito mais tarde descobri o quanto era perigoso o meu viver. O quanto minhas palavras, liberava em sonhos o cotidianos das pessoas, eu, o Carlos e o Avelino, éramos três suicidas ao ocaso, em busca de emoções, a qualquer preço, e em qualquer lugar.
Vendi imóveis, como se vende sonhos, e com o dinheiro paguei nosso sétimo céu, tornei-me arrimo de dois suicidas, éramos três loucos que esqueceram de saírem da chuva, caminhando a esmo em busca de nada “niilistas” o mundo não nos preenchia, nossa sociedade era desmesuradamente absurda, loucos andamos por este estado, por este pais, em cada pasto, em meio ao gado, buscamos de nosso “Psilossílabos” nosso “Soma” em cada canto, em cada pedra procuramos em baixo, em busca de nossa felicidade, mas uma felicidade em aberto, algo que não fosse previsível caminhávamos na chuva, uma chuva “Ácida”.
Meu apartamento pintara de preto, uma caveira de boi pendurara por sobre a cama, um aquário na sala, um ópio na cabeça correra em busca de nada, em busca do vazio absoluto, eu era nada.
Um homem
quando alcança
certa idade
tem o direito
de confrontar
a morte em
paz
não necessita
de outros Homens
necessita é de paz
devesse desviar
de sua porta
como se lá
ninguém morasse.
Acredito que dizia isto, o couro que escrevera, e pregara em minha porta, tirara do “LOBO DA ESTEPE” foi assim que caminhei dez anos de minha vida, em busca do vazio absoluto, queimara meus diplomas, e quase queimei a minha indentidade, ai meu racional prevalecera, eu mudei meu nome, passei a ser “Ray” simplesmente, mudei o nome para algo que não ficava nada, não queria significantes nem pesos a forçar minha vida, nós éramos livres, perigosamente livres
Eu, o Carlos, o Avelino, e o Wagner, resolvemos comer, beber e devorar tudo a que se desse nome mundo. Saíamos canibais, com fome de ser louco, o mais louco dos conscientes, uma loucura construtivista, com resultados práticos, para nada, não fazíamos nada, tudo não passava de continuarmos loucos, sentados ali na escadaria do teatro municipal, ouvindo Eliazar de Carvalho, a nos reger Valquírias, navegávamos por um espaço abstrato a procura de “Psilossílabos” de “Canabis” de moderadores de apetites, para em nosso caldeirão cozinhar um caldo de loucuras, em frente ao Mappim uma década ficamos, numerando “Clones” e “Ypsilones” passarem, ali loucos com seus medos e paranóias, éramos a razão do mundo, o seu porvir, éramos o seu amanhã, fomos a esperança do mundo.
Caminhei cego, guiado por cegos, por dez anos, atravessei o país atravessei cidades, como bode, saí comendo cada broto, que brotasse a mim, em uma trajetória filosófica, acreditei sempre que tudo isto tinha que dar alguma coisa, que não fosse pesadelos.
Ouvindo Pink Floyd, embevecido de Salvador Dali, fui em busca de poderes mágicos, de transformar imagens, o poder da leitura dos signos, a magia de transformar em imagens um subconsciente enlouquecido, fui em busca de cursos de arte, jogar xadrez começava a ficar sem sentido. Sentado madrugadas inteiras, eu, o Carlos, o Wagner ou Avelino, as vezes os quatro fazíamos bolsas de couro, para vender na feira que se formava ali na Praça da República, ou no Embu. Assim financiávamos uma loucura a quatro, noites a dentro chumbado de Mandrix, fazíamos bolsas .,e discutíamos a inutilidade como forma de protesto social.
Dormindo no chão por dez anos ajustei a minha humildade, ao caminho que ia trilhar, o caminho de nada, o caminho de não ser, um niilista militante, e procurei queimar o meu passado não ser, implica nunca ter sido.
Aos quatorze anos lera Platão, lera Sócrates, e muitos gregos mais, saíra negando a própria negação, como maneira de argumentar, aos quarenta e sete a ler Frei Beto, a ver cosmogonias o ser integrado ao nada, muitas noites de “Daime” passadas, o ser e o nada, torna-se cotidiano, minhas crises de tempo e espaço, quantas insônias. A vantagem da velhice é que adquirimos a máquina do tempo, passamos a representar a memória, e esta é chave de acesso ao passado, tornamo-nos guardiões do tempo.
Ali de frente ao teatro municipal, vestido de farrapos da moda, assistia uma megalópolis crescer, como uma criança, a sujar suas margens em enchentes infindas, olhava uma cidade crescer, acreditando ser um visitante de outro planeta, e curta minha estada neste planeta, eu fui onde a loucura pode chegar, amarrada a uma razão, um louco travado à lógica. Selvagem me pegava as vezes, tinha medo de mim mesmo, as vezes eu era um perigo para mim mesmo, um humanista em meio a guerras, a distribuir conselhos, a falar verdades fui o incomodo de minha geração.
Hypie num país em guerra, ia ver passeatas, onde um Erasmo Dias gritava no viaduto do Chá “Venham seus comunistas, eu vou matá-los a todos”, passeata na Rua Sete de Abril com cavalos a tentar matar-nos em gritos de guerra, me sentia Aristóteles de um general em guerra, eu era selvagem, eu era um perigo, e fui preso, em meio a uma revolução, fui feito prisioneiro, em uma noite infectra, de um passado incerto.
Sair da cadeia, foi por três dias minha preocupação, engaiolado, com estelionatários, fui sentar em vaso sanitário coletivo, comer com as mãos, se aquilo pode ser comer, para satisfazer minha ansiedade, meus sentimentos de conquistas e glórias, tinham que ser acalmados, do clube de xadrez eu saíra guerreiro, e esta adaptação as vezes é traumática, tão que me pegava sentado em uma sela coletiva do D.O.P.S., ali próximo a estação da Luz. Não me sentia culpado, e nem tão pouco vítima, eu era um peão, capturado, sujeito as leis de guerra.
Era uma guerra de um homem só, um Dom Quixote sem dignidade, e sem bravura, apenas um aglomerado de átomos e moléculas, a perguntarem por que?
As vezes ficamos prisioneiros em nossa dialética, as vezes corremos atras de nossas verdades, e elas são apenas o reflexo de nossas fantasias, o espelhamento de nosso ideal, mais nada. Havia uns vinte presos em minha volta, e eu não tinha culpa alguma a confessar, estética ainda não havia sido banida da constituição, e lá eu estava ,em meio a passeatas, apenas por deleite artístico, pois um bando de loucos fazia guerra em nosso quintal, ali próximo ao Teatro Municipal, onde loucos de cogumelos, ou beladona, ficavam a olhar amontoados de átomos e moléculas passarem, em busca de ser pessoa, em nome de sua prole, em função da cor de uma bandeira
Por três dia prisioneiro de minhas teorias, de minha sagacidade, das possibilidades de uma variante, de um xadrez armado, por minhas fantasias e convicções, fui autodidata de meu destino.
Em hora nenhuma, pensara em fugir, em hora nenhuma pensara nos policiais, estarem errados, foi-me triste admitir, que em alguma hora, em meu destino, eu estava errado, mandei recado a minha irmã, e ela providenciou a minha saída, por meios que até hoje não me preocupei, em perguntar.
Louco!, eu não era bom filho, não era bom irmão, não era bom amigo, eu era louco demais, o “niilismo” me fizera imune a sentimentos, e as emoções, eram algo a ser analisado, eu um jogador de xadrez, ia criar um jeito de vencer o meu dragão, de vencer meus medos, como me dera um livro minha amiga, eu tinha que me “Tornar pessoa” de Carl Rogers, eu honestamente tentara, em umas noitadas destas em Ouro Preto eu tentara, mas muito depois, descobrira que não tentara com bastante força, eu com minha lógica, não me convencera a me tornar pessoa, fora mais uma noite fria em uma cidade fria, de Ouro Preto.
Também em Missiones, lá na Argentina, fui a um cemitério, de mortos que não eram meus, a perguntar, a querer saber, se ali havia alguma verdade a ser observada, desenhei túmulos, e fui posto para fora de um país, a toque de caixa, e, setenta e duas horas, eu devia achar um pedaço do universo, que deveria me enfiar, ou ser preso. No Paraguai, fui ver índias serem fotografadas por turistas “Com peito, ou sem peito”, perguntavam em português de zona. Eu sempre me senti culpado, estar ou não em uma prisão, e eu estive em algumas, não era de fato o sentido de minha vida, eu vivia por viver.
Um rei cansado de sua majestade, era assim meu modo de encarar a vida, eu negava a própria negação, era um sofista, em que em algum espaço do trajeto, me tornar niilista, e isto era apenas um corpo em um eterno, girar, louco de ácido, fui ao sanitário, e ali descobrira o sentido da vida, eu , o Carlos e o Avelino, saímos correndo em busca do que parecesse luz, loucos descemos a cada porão que pudesse esconder um diabo, e puxamos muitos rabos.
Como se dizer inocente? Inocente ou não saí da prisão, e desta vez com mais convicção, fui me tornar pessoa.
Larguei o Kó, larguei o João, larguei o Hermes, e fui com o meu cunhado ser corretor de imóveis, troquei de roupa, cortaram-me o cabelo, o terno de meu cunhado, foi servir-me de uniforme, e fui eu São Paulo afora, a vender sonhos, casa sonhos, dinheiro abstrato do B.N.H.. Eu e o Mucio, fomos por toda zona norte, em busca de negócios, em busca de dinheiro, em busca de nossas comissões.
Sentado em minhas arquibancadas, com paredes de nove metros de altura, não durmo falta cobrir, falta jogar uma toalha branca em cima de um sonho de dez anos, construir dois palcos um não era suficiente para tanta fantasia, para o que eu penso ser a noite embuense, o homem possui o tamanho de seus sonhos, somos uma unidade abstrata com o poder de sonhar, um conjunto de moléculas que adquiriram os meios da autocrítica, um aglomerado de átomos pretensiosos, construtores de Deuses. Sentado ali sozinho, repasso os dias de fúria, e os dias de amor, só nestes palcos isto poderia se repetir, as vezes como farsa, as vezes como comédias.
Sentado no palco, repasso a estratégia combinada com o Ademar, finja de morto, e continue a obra, pois a prefeitura não quer liberar a construção, e repito a mim mesmo, ninguém vai barrar meus projetos, nem a lei. E subi paredes, e carreguei pedras, em busca de extravasar toda energia contida, pra dormir a noite.
Pintei quadros, tantos que até nós não sabíamos mais quantos, pintei todas as flores de meu quintal, pintei cada pedra, pintei o cachorro, trouxe cor e fantasia, a uma realidade, em busca de dinheiro, e meios de pagar tanto concreto, tanto ferro, tantas telhas, a tensão chega aos limites, quando briguei com os pedreiros, valente ameacei e fui ameaçado de morte. Quando esta hora chega, é hora de parar, se acalmar, e perguntar, se é esta variante desejada, nesta partida de xadrez, que é um viver.
Passei a pintar dez quadros de cada vez, três moldureiros davam conta da embalagem, três vendedores, despachavam para o mundo, meus quadradinhos coloridos, eu os pintei tantos, quantos blocos eu precisei, se puta fui, construi meu castelo com meu orgasmo, e este petrificado vai servir as fantasias de uma cidade, a culpa é apenas uma péssima desculpa, para não se fazer, pois todas as variantes acabam iguais, em xeque-mate.
Um operário plástico, foi assim meu título, foi assim que me sentia, vivia a rebocar piratas, tirar-lhes os encargos, que uma hora qualquer, louco de felicidade, acreditou carregar, livrar-lhes das encrencas, aprumá-los, e dizer a direção que encontrariam eu Santo Graal, na cidade das artes.
Eu projetara um sonho de dez anos, mas a felicidade retarda o acordar, me pegava cochilando em cima da necessidade de fazer, o tempo fluir sem traumas, sentado na Rua Joaquim Santana, a olhar o mundo passar em meu quintal, vieram os Gregos, vieram os Troianos, e todo o mundo passava por meu quintal, tiravam fotografias, gravavam novelas, eu tinha um quintal museu, passavam borboletas obilubiladas com as cores do nosso estar, dez anos sentados na Joaquim Santana, a negociar quadradinhos coloridos com Japoneses ou Ingleses, nosso mundo possuía outro calendário, e o trabalho era um acaso, e não o cotidiano, sobrava-me tempo, de pensar em magia de freqüentar o santo Daime, de saber ser um louco controlado, socialmente exemplar, meu filho faria nove anos, por estes dias, meu teatro quase pronto, mais um tantinho, e teria de parar, fora feliz tempo demais, era hora de pagar contas.
Vestido como um crente, fui para a imobiliária aprender a vender casa, sob as ordens de um presidente do Rotary, fui ser um honesto e exemplar, do homem integro, entrar em lares alheios, a mostrar seus quartos, a mostrar seus quintais, a pessoas que não conhecíamos, mas que íntimos nos
tornaríamos até o final da negociação, vendi muitos imóveis, aluguei um apartamento, comprei um aquário, pintei meu quarto de preto, a cabeça de um boi descarnada coloquei na cabeceira, e ali após o expediente me enfurnava, fugia do mundo ,que eu conhecia por ler jornais, na imobiliária , entre um cliente e outro, e maníaco depressivo que era, planejei como me matar, um dia destes de tédio, ou vazio.
Foi neste apartamento que começar a pintar meu quadro definitivo, “O Manifesto dos Fabricantes de Sonhos” um quadro grande, um sonho grande, e ficara acertado que no final deste eu me mataria, o Carlos concordou, o Avelino também, e o Carlos Conte me deu o revólver de presente, foi assim que pintei em bico de pena o que seria minha última sinfonia, em minha tristeza eu era um homem convincente, continuava a ser um sucesso como corretor de imóveis, o B.N.H. era uma mina de ouro. Eu era um louco que podia pagar a loucura, portanto me sentia um cara normal.
Eu fui um bom corretor de imóveis, porque eu compreendia os sonhos de meu cliente, e possuía ousadia de retoca-los, coloca-los nas devidas proporções dos seus rendimentos, e financiamentos, eu não estava impregnado de ganância, tão comum aos vendedores, de sucesso, eu os compreendia porque não possuía sonhos, não havia nada em meu destino para amanhã, e o meu hoje era vazio de objetivos, eu era receptivo. Transpirava honestidade, pureza era meu sobrenome, assim fizera meu niilismo, minha vontade e o meu querer, era apenas vazio, caminhava o caminho do meio, como me recomendara Sidarta.
Minha mãe, vinha como toda mãe, que tem um filho da mãe, a cada dois dias, limpava a roupa suja, botava as mulheres na rua, não me dava um beijo, porque ela não era disto, e ia embora dizendo que voltaria, ela me amava a sua maneira, tendo medo de mim. Se eu próprio era o terror, de mim mesmo, que diria a olhos maternos, o monstro que criara, e ter de chamar meu filho, bom, eu dava trabalho, um trabalho seco e enxuto, eu mantinha meu prumo.
O tempo, e o espaço, eram para mim o aqui e o agora, saí a noite, e ia longe caçar, ia longe embusca de uma fêmea para passar a noite, louco na noite, solitário corri bailes de carnavais, corri Garitão, Som de Cristal, a noite perdida ou suja, era a noite a ser vivida, e fui viver, corria as noites entre a Av. Ipiranga e a São João, o Cine Marabá, o Art-Palácio, eu vi São Paulo mudar, como vi mulheres mudarem de roupas, ia ao Teatro Santana, ver strip.
Entender pessoas é abster de julgá-las, o bem e o mal para mim era face da mesma moeda, eu pintava a estória de minha vida, em nanquim, em branco e preto, a espera de morrer. Eu sabia ser capaz de me matar, dois anos se passara, fora campeão de vendas dois anos seguidos, ficara famoso, e o Carlos me trouxe uma japinha, pequena engraçadinha, o rosto parecia um moranguinho, que todos queriam comer, fumava e cheirava, todas as fumaças de nossa casa, foi ver o louco que ia se matar.
As histórias pessoais tendem a ser entediantes, quando a vida tem sentido, mas a minha não possuía algum meu niilismo não me permitia seguir alguém ou uma direção, não possuía a quem me espelhar, faltava-me um herói, ninguém pode viver tão vazio e dois anos vivi a vender imóveis, a sair em busca de cogumelos, a criar receitas, para beber um suco com gosto de terra, cada dia mais eu precisava de loucura, ela hospedou-se em minha casa.
Era uma loucura sem demência, controlada, tanto financeira, quanto mental, era apenas uma busca levada em suas últimas conseqüências, a busca do nada, em direção nenhuma, as mulheres entravam e saiam de minha vida, com a mesma facilidade, impedido de amar, fiz da lógica companheira de insônias, buscava na razão a desordem, que era meu saber, buscava no caos respostas, que me satisfizessem e me tornasse pessoa, eu devia ter por ai uns vinte e oito anos, deveria de ter tomado juízo.
Não tomara! faltava-me fazer o telhado, faltava-me dinheiro, aceitei o primeiro emprego que me ofereceram, fui construir dois galpões industriais, uns mil e quatrocentos metros quadrados, para uma empresa italiana, a G.R. Importações e Exportações, comprei cinco mil e quinhentos metros quadrados de terreno, chamei o Ademar meu engenheiro, e fomos a luta, chamar tratores, fugir dos ecologistas, pois quando for para minha satisfação as regras não existem, e por dois dias de trator ligados adulteramos uma fotografia, recriamos a obra divina, alteramos uma paisagem, por cinco por cento, eu criaria para eles uma
pirâmide, mais meu engenheiro que também queria seus cinco por cento, olhamos a lei, interpretamos a lei, e assinamos contrato.
Meu teatro merecia, eu merecia, isto me pareceu suficiente, e fomos contratar homens e máquinas, de novo pela terceira vez, era para o Roberto Gozio, da outra fora para o Tairone Vitorino, com o qual, íamos criar a maior “Máfia” que esta cidade já vira, fomos a construir um cassino, era uma mansão cinematográfica, e foram três anos, e lá foram os sonhos, mas lá a casa ficara. Lá foi ele viver seus sonhos, de ser rei, de ser astro, em uma mansão cinematográfica. Não saiu um cassino, mas saiu o maior escritório de agiotagem que esta cidade já vira, viramos banco, em nosso escritório havia mais clientes que no Banco do Brasil, logo abaixo, rolamos doláres, como rola arte no Embu, aos borbotões. Ganhamos as eleições, financiamos a maioria dos candidatos, e elegemos o Puccini, após a posse o Tairone, interfere na prefeitura, pois noventa empresas, era o que ele administrava na cidade, e em uma reunião com o prefeito, alguém pergunta quem é ele, e ele ofendido responde “Você não me conhece? Até os vira-latas desta cidade me conhecem!” e sentou-se ofendido, nos fizemos história.
Mas um dia, como sei ser ,todos os dias, raptaram meu grande amigo, na porta de sua casa, com todos os seguranças olhando, levaram a ele e seu carro, levaram seu dinheiro, e levaram sua coragem, a fantasia se quebrara. A nova realidade, era que o medo tomou conta dele, e como disse-me uma vez o Cláudio de Souza Freitas” Intelectual não tem estrutura para pau” e ele não tinha, era rico demais para acreditar na necessidade de ser herói, deixaram-no em minha porta como cortesia, após lhe tomarem o dinheiro, e eu não estava em casa. A Hiromi o socorreu em seu desespero, chamou o João em seu socorro, e ali começara o desmonte de seu império na cidade.
Como analisar uma estrutura psíquica, sem ser parcial sem encrustar ali algo de seu, com que tamanha isensão, ou distanciamento emocional precisamos estar para entender sem interpletar, os atos humanos, o homem mais poderoso da cidade ruíra, a alguns rosnados e latidos, que pecado possuía sua alma, que se desmanchava com tamanha facilidade, o que sabemos nós, deste nosso poço sem fundo chamado alma, chamado” Ätmã”.
Passado alguns dias, começa o desmanche do seu negócio, coloca a venda seu castelo, volta para São Paulo, e agora passado três anos, eu ainda continuo a perguntar? Em que ponto rompera sua estrutura, com que modo tocaram tão fundo em seu ser, pra lhe imputar tamanho terror, que foi policiais, isto sabemos, da impunidade isto sabíamos, mas sabíamos disto muito antes, da impunidade das leis, vivíamos nós.
Ele chegou como o mais magnifico dos piratas, sua ousadia impressionou uma cidade, e a convenceu, em poucos meses tornara-se o príncipe da cidade, em pouco mais de um ano, impôs-se nos meios políticos, tal ousadia a cidade não conhecera ainda, pois somos uma velha e nova cidade, a aldeia tem quatrocentos anos, mas a cidade só tem trinta, e ele reinou aqui no centro, ao lado do Banco do Brasil, em frente a Prefeitura. Mas um gesto, um ato uma ameaça, e pronto, toda imagem se quebra, o solido vira abstrato, e a lógica não vale mais,
Perguntei a seus filhos, o que queria fazer o Tairone, sair da cidade, me responderam, e saído foi da cidade, e hoje ele continua meu contador, o administrador contábil de minha vida financeira, e fiscal, foi se reduzindo, até sumir, e sumiu em uma pequena cidade de um interior qualquer, onde pudesse passar despercebido, ele encontrara com seu terror. E este o deixara marcado para uma vida inteira.
Qual fora a imagem de terror que seus captores, lhe imprimiram para fazer-lhe tamanho estrago, conseguiram anular um homem ousado, transformaram-no em um coelho assustado, a fugir para o mato,ou uma cidade qualquer perdida em meio a um imenso nada. Eu nunca soube, não conhecia a profundidade de sua alma, o suficiente, sua fantasia de ser astro, sua vontade de ser deus, ruiu, e ele fugiu, do mundo e de si mesmo, era ele apenas uma pessoa normal, com sonhos normais, que se encostou em nós, e de sonhos a pesadelos, seus sonhos duraram uns três anos.
Somos fabricantes de sonhos, e o Tairone nos pedira um sonho, e ao Tairone entregamos um sonho, que ele não pode carregar, e muito pouco pode usufruir, Sonhos e pesadelos são as mesmas coisas, o que muda é nossa capacidade de absorve-los, curti-los, e dizer nosso passado foi assim constituído. Apagou todos os seus traços, desfez todas suas marcas, espalhou seu cheiro, para que caçador algum o pudesse rastrear, deixou-nos apenas a sua onipresença, apenas uma lembrança para o álbum de recortes, o guardião de nossos sonhos, é assim nosso passado, constituído de pesadelos, e fantasias desfeitas, e o pouco que eu entendia de pessoas, muito pouco pude ajudar.
O pânico tomara conta de seu ser, seus medos afloraram ao consciente, e inconsciente se tornara, queria apenas fugir, anular-se, e assim não mais o procuro. Não sinto que queira me ver, acompanho apenas as trajetórias de seus filhos, que alçam vôos solos, por esta vida, a administrar livros fiscais.
Com o Roberto, era mais profissional, era mais comércio, era algo monumental, era gastar cento e setenta mil dólares, lá fora eu! Embusca de pedreiros, de tratores e engenheiros, lá ia eu a fazer acordos, de levantar paredes, e ao mesmo tempo, fechar e cobrir o meu teatro, era muito material, era muito movimento, e “Daime” forças e dai-me amor para eu poder trabalhar,” foi acompanhado do “Padrinho” Sebastião, do mestre Irineu que em uma manhã de verão que mandei derrubar a floresta, botar abaixo o quem em nossa frente passasse, vinte e quatro horas depois estava encalhado o trator de tanta água que brotava do subsolo, paramos o trator, que venha pedras, vamos fazer drenagens, vamos atar as sangrias, mudamos o projeto tantas vezes, que ficamos sem projeto, fomos fazendo para regularizar depois, quando o italiano voltasse da Itália, e assim foi até o final da obra, quatro meses depois, ganhar dinheiro, esta era a tônica de minha vida, me tornara um classe média.
Ansiedade, era o produto mais constante em meu organismo, eu tinha pressa de tudo, queria acabar logo, queria fazer coisas grandes, pintar quadros grandes, estava com meu égo a todo vapor, estava me transformando em um faraó, me pegava faraó, quando Hiromi me dizia: “Seu musaoleu”, eu dizia minha pirâmide, e todos diziam minha casa ! Minhas três pirâmides, rasgavam aos céus, em velocidas meteórica, pois tinham que estar prontas em três meses, era meu prazo, o tempo que eu tinha, para correr de volta a galeria, para trabalhar o natal, nosso natal começa em setembro, e vai até novembro. Era meu ganha pão, o leite, de minha criança, mais ainda que era minha fonte de prazer, poder comprar quantos quadros quisesse, ou gostasse.
O poder, me dava o Daime! o dinheiro me dava a arte, a felicidade era meu lar, meu filho minha mulher, não entendia o porque desta ansiedade, esta necessidade de correr, como se fizesse falta, alguma coisa em meu universo.
Em minhas noites de Daime, passei a pintar, a contar como era ou seria o Santo Daime. Conversando com a Nancy, ela me pergunta senão posso mandar trator até nossa “igreja” para derrubar uma outra montanha, fé era posta em prática, derrubara mais uma montanha, eu devia ser um homem de muita fé, e nossa igreja ganhou uma praça, onde fazíamos nossa fogueira, para loucos de daime, adorar prometeu, chamá-lo de irmão, por nos ter dado o fogo.
Gastávamos mil e quinhentos blocos por dia, vinte sacos de cimento, quarenta sacos, de cal, e um caminhão de areia, todos os dias, como formigas a cantar uma ladainha, a cantar hinário, fomos nós vida a dentro, a criar entranhas, a inventar cabalas, noite a dentro do tempo, fomos nós a demarcar espaços, para meu filho dizer é meu.
Montei uma serralheria em meu palco, apenas para fazer as ferragens, foi assim que cobrimos nosso palco, domamos finalmente as fúrias, estávamos abrigados, eu finalmente possuía um teatro, e para ele transferi meus quadros, transferi minhas tintas, e passei a pintar quadros grandes.
Pois grande era o espaço conquistado, soltei um trator no pasto, meu predador tinha tamanho de um “Triceratopo” contratei dois engenheiros, contratei pedreiros, e subíamos dois galpões em meio a vacas, em meio ao brejo, subíamos a sede da G.R., em meio a mata, me telefona os fiscais, pois tenho o meu terceiro pedido de embargo em ação, urgia me explicar, faltava dizer que estava fazendo a fachada, de meu teatro, a meus vizinhos, por isto eles chamaram as autoridades, para pedir explicações.
Meu égo! Indignado gritei, o terreno è meu, a casa è minha, e a calçada do meu lado é minha, botem abaixo, subam as paredes, não há na prefeitura autoridade para parar as minhas obras, peitei a lei.
Minha história, é a história de minha ousadia, eu estivera toda minha vida a sombra de um vencedor, sem querer passar, apenas me mantendo, somente equilibrando, minha ansiedade não era a posse, mas sim o conhecimento, o saber como funcionava, passei uma vida nas sombras dos Deuses, antecipava seus gestos, roubava de suas carteiras, apenas algumas cédulas, apenas o necessário, pra meu custo operacional, em troca retornava-lhes em sonhos, nós fabricávamos sonhos, mas alguns sonhos descambam ao pesadelo.
Ao subir as trelissas, soldar em cima do telhado, e acreditar em matemática, acreditar em si mesmo,, que não vai cair, por mais que a torcida grite, por mais que Marias chorem. Pois em cima vem ainda sete toneladas de telhas, olhava para cima tentando convencer a mim mesmo que eu precisava daquilo, para completar um sonho, o seu sonho! me dizia a Hiromi, nós aqui, eu e o Rafael vivemos apenas seu sonho.
Mais vinte toneladas de pedras, para fazer uma fachada, eu quero ali na pedra uma borboleta, na pedra ali, eu quero duas letras, um H e um R, o símbolo de nossa empresa, nós éramos uma indústria de quadradinhos coloridos, como dizia os adversários, os reis do pastiche, e meu pedreiro, fazia sua obra prima, indiferente a vizinhos, indiferente a lei.
A subida de paredes em meus galpões, foi algo digno de nota, empregamos toda uma favela, de pedreiros e ajudantes, em busca do céu subimos paredes, as minhas Torres de Babel, ninguém entendia ninguém, mas todos obedeciam ao maestro, era chamado de milagre, a nossa técnica.
Ficara difícil pintar, não conseguia sentar, a cabeça não parava no mesmo lugar muito tempo, para sanar isto ia a trabalhos de concentração, ou a trabalhos de cura, seis horas sentado sobre meu saco a pensar, a curar-me de todo mal, a estar com o Deus, a ser parte de um todo, chamado criação, o Josué e o João riam, lá vai o Ray bater cabeça, e lá ia eu em busca de vigor e energia, mas também tinha que acalmar meu coração, chegar em casa, amando minha família de coração aberto sem mágoas, sem dor.
Os trabalhos do Daime estão me mudando, eu percebo isto, senti que houve uma dilação em minha percepção, me sinto mais forte internamente, comecei a pintar a cerimônia, montar cavalete no mato e a morrer de frio trabalhar, rezar e trabalhar, sinto uma busca mais sólida, sinto que busco outra coisa, fui em busca de mestre para explicar-me.
Contratei para ser meu secretário, um sacerdote, um fazedor de Daime, o Gerson mudou para minha galeria, e passou a gerir meus compromissos, e a cada semana íamos a uma cerimônia diferente, passei a conhecer o que se fazia com Daime, em outros centros de estudos esotéricos, conheci magos e feiticeiros, conheci também as rainhas da florestas, com elas rodopiei noites afora no império de Juramidam.
Meu égo tinha que ser domado tanta energia nos atrapalha as vezes, nos deixa desarmados, para a convivência do dia a dia, esquecemos de afagar alguns gatos, dar pontapé em cachorros as vezes eles pensam que, é carinho, de tão carente que nos tornamos, as vezes, conviver com clientes, com empresários, com pedreiros exigia de mim ser artista, independente de pintar, me sentia artista.
Depois que coloquei o telhado, senti meu coração aliviado, pois uma obra completa sua terceira etapa, no telhado, e é aí que pode-se acabar o dinheiro, sem acabar com a obra, pois o tempo, a água e o sol, vai nos tirando a vida, lentamente, inexoravelmente.
Senti-me na obrigação de não fazer política, não podia dar-me o luxo de arrumar mais inimigos, disse não a todos que me pediram apoio, eu ia ficar fora ,um fora ,com pequenos detalhes, tudo em troca de não detonarem as minhas obras, não chutarem meus castelinhos de areia, e pedras, e ferros de tonelagens, era um acordo tácito, era um acordo de cavalheiros.
Nos tornamos invisíveis, minhas obras eram invisíveis, perante aos poderes públicos, empreguei uma favela inteira de pedreiros, e serventes, como foguista a alimentarem uma fornalha para meus monstros crescerem, eles corriam por entre andaimes, montes de blocos como sangue a correr no organismo, e a medida que os prédios subiam mais micros eles se tornavam, meu égo alimentava meus sonhos, e estes faziam o égo crescer, era meu moto-contínuo.
Cada dia ansiava por gestos maiores, por espaços maiores, me sentia faraó, e como tal, construía meu túmulo, no Vale dos Reis, na Terra das Artes. Em meio a um monte de pastiches, queria montar minha Cabala, da terra, da lama extraia minha vida, e minha vida era minha obra.
Mas havia arte na cidade, havia artistas, havia magos, tinha que a todos respeitarem, eles chegaram antes de mim, fizeram a fama que usufruímos, não são bobos, e nem primitivos, mas que os ha! os ha! Passava por eles, bebia com eles, e com eles fazíamos guerra, a guerra do pode mais, a guerra do pó de arroz, ferozes e infinitas guerras, de qual lado da rua ,deve passar o turista.
Eu, o João, e o Josué, causávamos algo na cidade, o Zé Figueiredo, o Aleman e o Ciro, de outro lado, e os outros a tecer intrigas, a comandar protestos, nós fazíamos os novos tempos da cidade, éramos sua modernidade, vedetes de um palco renascentista. Mas qual do lados também não se julgava assim? Acaso a pretensão è um privilegio de um grupo qualquer?
As televisões, nos usavam como cenário, e muitas vezes como figurantes, cada um de nós tivera os seus dez minutos de fama, cada um havia conhecido a Europa, ou os EUA outros foram a França havia também os que já haviam ido ao Japão, mas eu tinha medo de alturas, eu tinha medo de avião, como líder de uma multidinha, com voz ativa no conselho da cidade, apontávamos nossa varinha de condão, e algo acontecia, vivíamos os nossos tempos, não mais o tempo de Solano Trindade, não mais os tempos do Assis, era tempo da Raquel Trindade, era tempo da Raquel Gallena, eram outros tempos, na cidade das artes, no vale do Ray.
Nós inauguramos os dias de glória da Brígida Sacramento, com seu Partido Verde, nós inauguramos o Puccini, com sua modernidade, criamos heróis, ou chutamos os heróis do adversário, o poder da cidade nos era cotidiano, criamos a lenda Nivaldo Orlandi e sua Passarinhada, mudamos o eixo do poder na cidade, pretensiosos, brincávamos de ser Maquíavel. Enquanto posávamos de príncipe da nobre arte, de pintar quadros, e alguns de serem artistas, tais fatos e acontecimentos precisavam de um palco, eu fui então construir o palco, e em meu teatro, construí logo dois.
A construção dos galpões eu aceitara mais como desafio do que necessidade, eu sei, que precisava testar se eu sabia ou pensava saber, eu podia estar entrando em paranóia, e me acreditando o rei da floresta, o príncipe do Jangal.
Nestes momentos, eu precisava de um mínimo de concreto, eu pintava era um figurativo abstrato, assim vagava nas incertezas do destino, e isto precisava de certas confirmações, fui construir galpões industriais, era tanta a energia, que saí derrubando florestas e montanhas, apenas para satisfazer as minhas ansiedades e incertezas, me tornei a ervas daninha da floresta, e montanhas coloquei abaixo. Fabriquei um sonho para o Roberto Gozio, e ele propôs financiar-lo, assim olhava o monstro sair de nossos sonhos, e terra os paria, com blocos de concretos, e ferro, e cal.
Montei uma serralheria em meu teatro apenas para fazer suas ferragens, queria algo sólido e antigo, tinha que acompanhar o estilo, deveria se confrontar com pedras, ferro velho e retorcido, fui em busca das portas, atras de vitros, construindo bilheteria, foi ficando pronta minha pirâmide, foi também ficando pronto os galpões, simultaneamente chegava eleições, chegava o natal. Deveria retornar a galeria, e eu estava agora com quarenta e oito anos, no trabalho de concentração do Daime, passava as vezes pensando, no que isto representava para mim, no quanto de tempo eu tinha para projetar outra obra, e qual seria esta.
Estava encerrando o projeto Embu, doze anos se passara, minha obra estava concluída, e o que pintava era apenas aventura, e como aventura freqüentava o Daime, e bebia tudo o que tinha direito, esta no caminho de apenas ser feliz, meu filho estava fazendo dez anos, e daqui para frente, não havia muito a fazer, daqui para a frente era fazer literatura, eu chegara ao direito de usufruir.
Passei a escrever a história de meus mega-eventos, eram sólidas cavernas concretas, todo dia comprar cimento, todo dia correr atrás de blocos, pintar, administrar a galeria, correr para o Daime uma vez por semana, dar acabamento no teatro, rebocávamos suas paredes, não conseguia mais pagar o aluguel da galeria, fui amontoando dívidas, e estas não me deixavam dormir, só louco, e assim resolvi ficar fora da política, e foi assim que expliquei aos meus militantes, e ao João passei o bastão dizendo o rebanho é todo teu, alimente e reconforte.
Pairei por sobre os acontecimentos, e faltei a quantas reuniões consegui, a outras tive de comparecer, e ia, mas mais manso, eu estava mais gato, bem suave, bem felino. O Assis não confiava mais em mim, aparentemente eu devia estar escondendo o jogo, ele pensaria, como pode um lobo virar ovelha?
A todos eu explicava o meu excesso de trabalho, o meu desgaste era visível, estava com cara de cansado, quando a Hiromi chegou-me a explicar que estava grávida, o mundo deu uma balançada eu estava fazendo quarenta e oito anos de idade, achava-me aposentado da vida paterna, meu mundo deu uma balançada, por três anos eu não havia me preocupado que a Hiromi queria um filho, fui pego como marido traído, louco de ira, pois acreditava que dezoito anos de casado , me dava o direito de participar de saber, o que tentava, fomos para a Bahia.
Eram férias, morrendo de medo, com pavor estampado na cara, dopado de calmante, subi em um avião, meu terror número um. Heroicamente, venci meus medos, me posei de pai, lá fomos para Porto Seguro, férias, uma semana que eu tinha para descansar, choveu! E foi assim em mais dois dias, eu
dava sorte, aos baianos, levava chuva a terra do sol, chegamos a Cabralia no dia de seu aniversário, com trio elétrico comendo solto a noite inteira, era uma semana de férias.
Terminara um dos galpões, era um record, com três meses criamos, arrancamos do chão um dos galpões, fechamos e entregamos a chave, meu teatro também fechava, tudo parecia correr bem, porque eu não estava feliz? Me perguntaram muitas vezes, nem com férias na Bahia, você fica feliz? Pode um Faraó ficar feliz?
O barco subia, descia, rios e mares, passamos nossos dias, a comer e andar de barcos, velhas caravelas de tempos modernos, conversar com pessoas normais, finalmente turistas nós éramos, o Rafael exercitava o que melhor ele faz, viver como um príncipe, e feliz pela expectativa de ter um irmãozinho para brincar, atravessei a Bahia pensando, como eu ia mudar minha vida, para ser pai de novo.
Voltar! Tinha que de novo subir no avião, meu terror começou ao sair do hotel, tomado de pavor, queria descer da Besta que me levava ao aeroporto, mas ser pai, è ser herói, branco como cera, retomei meu prumo, e com calmantes e dignidade, subi no avião que nos traria de volta, ao meu castelo.
Ao descer no aeroporto de Congonhas, peguei meu carro, das mãos do motorista ,e fiquei feliz por dirigir de novo em uma cidade como São Paulo, mas com pneus no chão, chegando ao Embu, respirei tudo aquilo que estava preso saiu, e feliz voltei a minha rotina, dos meus cinco empregos, e fomos nos dias seguintes comprar vaga no Hospital, para sua gravidez, eu voltei para o daime.
Fazia pesquisas, com daime, pintava cultos , descrevia seus rituais, e noite a dentro, participava dos rituais, de cura, da lua, e de todos os que eu conseguia tempo para lá estar, conhecia outras igrejas, e as freqüentava, em busca de conhecer, a eles e a mim, era uma busca que já durava uns quatro anos, minha casa passara a ser um posto de muda para daimistas que no tempo hábil não descera ao planeta Terra, dera o nome de posto de muda, a minha pousada, ali, suas diligências paravam as vezes para reparos, delas, ou o aprumo destes, para chegarem em São Paulo relativamente inteiros, e assim começa as histórias do que chamei minha casa.



