Em Revista
SALÃO DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
REPORTAGEM
JORNAL PONTO DE APOIO 6 (março 1980)
No dia 20 de novembro, deu-se a abertura do Salão de Arte Contemporânea de São José dos Campos.
Foram inscritos, mais ou menos 1.200 artistas. Os organizadores são: o Departamento da Cultura da Prefeitura municipal, e a Galeria do Sol. O cartaz executado por Carlos Alberto Vieira. O júri composto por Arcangelo Ianelli, Aldemir Martins, Hermelindo Fiaminghi (artistas plásticos), Francisco Bittencourt, Jacob Klintowits e Olívio Tavares de Araújo (críticos de arte).
Em São José a estrutura foi montada pela Galeria Sol, na pessoal do Sr. Ênio de Almeida Puccini e pelo Departamento de Cultura com Dr. Osvaldo Martins Toledo, encabeçando o plantel.
A quem entrevistar ?
Do júri escolhi, Ademir Martins, pois na minha opinião será o artista em voga na próxima Bienal latino-americana, pois a sua arte possui o que chamamos de arte com raiz brasileira..
O Sr. Osvaldo Toledo, porque é o organizador do Salão e o representante máximo em autoridade, assim como também seu plano de criar um Atelier Livre de Artes Plásticas em São José dos Campos. Caso se concretize, fará de São José, o centro artístico do Vale do Paraíba.
O Sr. Ênio Puccini, por ser a outra chave do Salão. O único “marchand” da cidade e dono da Galeria do Sol, o único jornalista de arte da cidade. Possui uma cultura invejável, a qual lhe valeu, o afastamento da faculdade pelo AI-5, formado em Ciências Sociais e Direito.
Enfim, são estes, os principais homens, que no momento causarão, um ano de tendências e de elites e de elites, no Vale do Paraíba, pois a partir deste Salão, é que tomará forma e caminho, o tão labutado Museu de São José dos Campos, e uma Casa de Cultura a expraiar-se pelo Vale.
As perguntas são comuns a todos, para que o leitor possa medir a que distância um ser humano anda do outro, e quão diverso é o universo artístico. Podendo assim achar uma brecha, ou mesmo um caminho a trilhar, em busca de uma afirmação.
Ray e Hiromi (entrevistadores)
I - A arte é necessária? Por que?
ALDEMIR - É de uma necessidade vital. Como a Arte é uma atividade mental, o homem só existe artisticamente ou vegeta.
TOLEDO - Óbvio! Manifesta em todos os setores artísticos, o eco do momento social e econômico. As manifestações artísticas não nascem por acaso, evidentemente. Como toda a experiência o resultado se apresenta num determinado momento, mas não podemos esquecer que é um produto de todo um processo formativo. Podemos perfeitamente determinar a fenomenologia, o desencadeamento de causas e efeitos, bem como analisarmos toda uma série de injunções e conotações que se por um lado são somas de manifestações próprias do contexto social, por outro lado não fogem às implicações econômicas. É dialético!
ÊNIO - Acho que não. Não é questão de ser necessária, é inerente ao próprio desenvolvimento do homem. É um fator criativo, que transcende sempre um estágio de limitação.
II - O que leva um artista a escolher um estilo ?
ALDEMIR - O artista não escolhe o estilo, este comanda o artista. Arte, é mais feita de erros que acertos; este é o estilo.
TOLEDO - Na minha opinião não existe escolha. O artista extravasa em sua obra o próprio ser; chegam as obras a serem biográficas. Entendemos o homem através de sua obra. Por isso, o caminho artístico é sempre a conseqüência do acúmulo de experiências e aculturamento do indivíduo. Exatamente por isso podemos reconhecer em cada artística sua face.
ÊNIO - É uma questão que o próprio artista tem que definir; o que se adapta mais à sua sintonia de vida.
III - O que espera conseguir como objetivo de sua arte ?
ALDEMIR - O artista espera compreensão, reconhecimento em tudo o que faz e executa (para que possa ter um admirador). O artista é apenas um veículo.
TOLEDO - Nada! Porque a arte para mim representa uma “amante” em minha vida, e por isto mesmo me conduz ao mundo de sensações, de emoções, que evidentemente não tem traduções no contexto da sociedade de consumo.
ÊNIO - Não espero nada. Simplesmente gosto de arte dentro das limitações. Procuro conviver com as que mais se adaptam à minha sintonia, sem a preocupação de ser um mestre orientador definido para alguém.
IV - Qual das tendências atuais que podem, ou têm chances de entrar no novo Século?
ALDEMIR - A arte é uma só, a boa é a temporal, haja visto os egípcios, gregos, outros.
TOLEDO - Esta pergunta tem resposta subentendida em nosso preâmbulo. Não podemos adivinhar, muito embora, possamos prever o que possa acontecer no Século XXI. Se as artes fixam momentos históricos. Não sei quais as tendências que sobreviverão, mas de qualquer forma, a soma dos “ismos” indicam perfeitamente o mundo de transformações em que se processam na vigência do Século XX, não existem “ismos” por acaso.
Para mim a escola representativa do Século XX é a concreta.
ÊNIO - Quem vai definir isto é o tempo que é o único capaz de selecionar a aprendizagem dos homens. A obra dirá por si mesma.
V - Que representa Rubem Valentim na atualidade?
ALDEMIR - Um artista baiano que conseguiu localizar-se com seu sincrentismo no panorama afro-brasileiro.
TOLEDO - Com sua emblemática nos faz penetrar nos domínios dos signos, dos sinais, é como se projetássemos totens no Século XX.
A representação escultural de Rubem Valentia para mim, é uma manifestação magnífica da projeção do homem.
ÊNIO - Na atualidade, assim como Rubem Valentim, tem muitos outros buscando um caminho, que também se definirá com o tempo.
VI - Qual o meio e as chances do Brasil livrar-se do colonialismo cultural?
TOLEDO - Voltamos ao preambulo, porque é toda uma situação sócio-econômica que determina a fixação das manifestações artísticas; o colonialismo cultural é a projeção do colonialismo do Século XX, o colonialismo econômico. Entretanto está em voga a discussão da arte universal, da arte latino-americana e da brasileira.
Acredito que a arte brasileira; não é somente a projeção de nosso folclore, não significa tão somente a exteriorização das peculiares regionais. As informações que nos chegam a velocidades vertiginosas de todas as partes do mundo nos conduzem a um processo de conhecimento, análise, assimilação, desdobramento individual, e síntese final. Em outras palavras, toda e qualquer informação alienígena será transformada, e terá como conseqüência uma imagem inteiramente diferente, quer queira, quer não, será nacionalista.
ÊNIO - Sou uma pessoa de planeta e não de país. Para mim o homem é o homem, em qualquer país ou situação; com maior ou menor desenvolvimento. Passa pelos problemas existenciais, sociais, culturais e econômicos. Diante disto sou a favor do homem da Terra, liberto e consciente, porque todos pertencem a uma célula única.
VII - Qual a função da Arte na sociedade ?
ALDEMIR - Nada se faz na sociedade, sem que se faça Arte. A forma de servir a mesa, o formato da cadeira, o sapato. A arte é informação, é curtição.
TOLEDO - É o reflexo da sociedade, mas por sua vez pode determinar na dinâmica social novos fenômenos.
ÊNIO - Não existe função da arte na sociedade. A arte por si só é algo que considero acima de qualquer subserviência.
VIII - A Arte Abstrata tem lugar em nosso subdesenvolvimento ?
ALDEMIR - A Arte Abstrata, é exatamente o que chamamos de colonialismo cultural; não tivemos nem ao menos o figurativo descritivo, e já passamos para a Arte Abstrata.
TOLEDO - É lógico que a abstração, projetando toda uma forma de sentir do indivíduo, se situa válida em qualquer contexto social; Iolanda Mohaly, apesar de húngara, criou toda sua obra no Brasil. Ianelli, hoje é exportado aos E.U.A.. Tomie Otake é vendido em leilão em Nova York. Situe-se na música popular brasileira e veja como Jony Alf faz abstração de seu cantar de poeta, de ventos, praias, amores e saudade.
ÊNIO - Por que não? “A Arte transcende a pequenez humana. Ela existe como um caminho, só a geração futura, será capaz de traçar o azimute deste caminho.
IX - Qual o caminho a seguir para uma arte nacional?
ALDEMIR - Difícil, os caminhos são formados de pequenos atalhos, de picadas, até chegar a uma arte nacional. É difícil traçar este caminho, só a geração futura, será capaz de traçar o azimute deste caminho.
TOLEDO - Não existem fórmulas. Qual é o caminho nacional? Será por acaso o caminho do sistema? Será por acaso o caminho da social de Brisola? Será o socialismo puro? A Arte estará no contexto da solução de escolha de nosso povo.
ÊNIO - Não acredito em arte nacional. Acredito no homem como um todo, convivendo num planeta chamado Terra.
X - Seria o artista um Lacaio Social?
ALDEMIR - Não ! O artista deixou de ser lacaio, palhaço, exótico, para posicionar-se com maior seriedade. Hoje está mais para executivo, que para funcionário.
TOLEDO - Nunca! Mas é evidente que existem muitas formas de “suborno” inclusive artística. Podemos projetar esta pergunta à Europa e vamos ver no Realismo Soviético, também uma forma de subserviência. Não tolero Arte engajada, mas sempre entendi a Arte dentro do contexto sócio-econômico.
ÊNIO - Conheço muitos artistas que se consideram lacaio social, o que ao meu ver define que cada um tem o lacaio que merece.
XI - As Bienais têm conseguido preencher nosso vazio cultural?
ALDEMIR - Tem! Desde que não existem museus nas universidades, faculdades ou colégios. A Bienal preenche esta lacuna como mostrassem do que se faz no mundo.
TOLEDO - Existe vazio cultural? Para mim não! No máximo podemos admitir níveis culturais. É claro que as bienais funcionam ou devem funcionar como fonte de informações, para proporcionar comparações, discussões e proporcionar no Brasil, a oportunidade de novos caminhos, mas por outro lado, também temos muitas coisas a mostrar. É desencadear o mesmo processo de dinamização cultural, as fontes brasileiras de cultura. Em outras palavras não admito a posição de mero consumidor.
ÊNIO - Não! As bienais são como qualquer outra mostra. Mostram apenas parte do que o homem tem capacidade de produzir. À medida que ela já tem um espaço físico definido, ela se limita por um número “x” de representante.
XII - A Arte Brasileira de hoje tem algo a ver com a situação política do país?
ALDEMIR - Tem! A Arte retrata a circunstância social, econômica e política.
A Arte é um todo em que a censura tentou coibi-la. Na pintura, foi mais despótica e ignominiosa. Não se conhece cantor, compositor, ou literato, preso. É pois na pintura, onde tivemos Volpini, preso. Foi ai que a censura exerceu uma violência passional, aliada de uma burrice de parâmetros - sem aferimento.
TOLEDO - Evidentemente. Inclusive tem artista condenado na tradicional Minas Gerais, por apresentar seus quadros alusivos ao sistema (Volpini).
A Arte sempre representou um caminho ou forma de protesto contra aquilo que nos é desagradável.
ÊNIO - Aí é que é a tal história. Hoje praticamente vivemos uma desculpa de 15 anos de opressão, mas na realidade acredito que, o que temos de ruim hoje, é fruto mesmo de incapacidade.
XIII - Quem hoje representa melhor no Brasil o elo Arte e Política?
ALDEMIR - Jarbas Passarinho, coronel, escritor e líder do governo no senado, não tomou atitude alguma, ou gesto para legalizar a profissão de artista; e se fazendo passar por escritor. José Sarnei, escritor, poeta da Academia Maranhense de Letras, cujo “Marimbondo de Fogo” comeram suas orelhas para que se tornasse mouco aos anseios do artista nacional.
TOLEDO - A política, é também uma arte. Não podemos esquecer que Portinari foi deputado, porque era artista. Na França encontraremos inúmeros poetas, com representação popular. Não admito o engajamentos cultural. Em outras palavras, sempre que quiserem utilizar a Arte para interesses subalternos, não tenham dúvidas que cairão do arame, muito embora existam artistas na corda bamba. Não me agrada cair em citações, cada um assume a responsabilidade por suas palavras e obras.
ÊNIO - Não acredito em arte engajada, porque desde que seja, ela se torna subserviente as tendências “x” ou “y”. No entanto a Arte deve englobar todos os aspectos pertinentes ao desenvolvimento humano, fluindo liberdade de transformação e não subserviência de posição. Isto quer dizer que a Arte transcende os limites falhos e pequenos das estruturas políticas. Não atende nem a A ou a B, mostra a necessidade de transpiração do homem.
ALDEMIR - “O artista jovem é impetuoso e gosta de arriscar. Em arte deve-se dar maior importância à execução que à criação.
O Brasil regrediu com a revolução tendo agora que correr para alcançar o tempo que perdeu. Regredimos uns 50 anos, e urge que o recuperemos”.
RAY