OLIMPO UM MINUTO E MEIO


OLIMPO UM MINUTO E MEIO


O que é o tempo, senão uma fagulha de luz perdida no espaço.
O que é Deus, senão a totalidade do escuro, percorrido por uma partícula chamada vida.
Esta é a história de duas partículas que tinham este espaço de trajetória, com uma faculdade a
mais, eram artistas.!

É a noite que esconde o tempo, em um processo gradual, em uma orgia triangular. O dia, a noite e o homem, que como em um processo autofágico,

se consomem. O artista olha, o artista pinta.
Signos e símbolos, de linguagens desconheidas, dos homens, dos locias, mas que em outro tempo, e outro lugar, era o grafite da história, que o pintor pegou em um gesto rápido, do viver do Judeu, do coreano, em terra alheia, sem pátria, é o pintor. Assim o artista passou por ali olhando, observando e descrevendo, o espaço o dia, o lugar estado e retratado, em um ato de se tornar parte do que se viveu.
Eu ficava ali, de minha janela a olhar os clones coloridos a flanar, por entre barracas.  de artesanato, domingueiros consumidores de supérfluos inomináveis. Uma selva de sapos de pano, santos de barro, em meio de barracas de acarajé. Passavam em baixo de minha janela por meio de bolsas, bancas de sandálias rústicas como se a negar sua vida balanceada de rações envenenadas. Pobres clones com um desejo voraz de tudo consumir, por cinco minutos, tempo de duração de uma moeda, de casa de pinus, bichinhos de durapoxe, quadros de cavalos a correrem de incêndios, por bucólicas paisagens européias, cópias mal feitas da revista Walter Foster. E de nada queriam saber, apenas, apenas consumir, em um ato desenfreado de ignorância histórica, de ignorância cultural, de não saber nem ao menos o que consumir, tantas eram as opções, era tudo a ser comprado.
E eu tenho que pintar isto, como proposta, como obrigação, ou razão de ter voltado, e eu voltei. Daqui de meu púlpito celeste, do alto de minha torre de marfim, falando como em um palanque, vendo como um jaco, eu faço, eu faço símbolos, eu crio signos, que contam uma história, dos que voaram, e não voltaram, ao convescote dos semi-deuses.
Uns voltaram, outros nem partiram, e foi tão triste o recontar, idílicas batalhas travadas com os deuses, uns derrotados, outros vencidos. A feira mudara, viera para debaixo de minha janela, que medieval parecia minha cidade. Bolsas enchidas com jornais, notícias amassadas, qual um passado descolorido e desgastado pelo tempo, frágeis barracas de panos coloridos, tais sonhos desvaídos, abandonados ilusões de dias ricos, de muito ouro. Sonhar é preciso.
Toda partida era uma derrota na vontade de ficar. Um voltou expressionista da Holanda, vive em seu universo cercado de certezas, de ser Deus, não passa de um Semi-Deus. Apenas possui a técnica dos raios, não sabe fórmulas, mas crê Deus, coisa típica, vai se enganar ainda muito até aprender que lançar raios nào é tudo no ato de ser mágico, me faz lembrar minha opereta que assim dizia:
O rei catalogava
todo preso torturava
cada sonho, do herói sonhado
dez anos depois
como brinde distribuia, ao povo,
os sonhos catalogados
era um grande rei
um déspota iluminado

Minhas noites mal dormidas, acordando em meio ao negro, e virando na cama a tentar uma luz, um axioma ou um aforisma mal interpretado, mal visto ou mal codificado, andava a vagar, a procura de uma fagulha em meu passado, que pudesse explicar porque voltei.
Havia fatos de retrocesso? Acaso não era mais um caminho a caminhar? Ou o mesmo chão, o mesmo lugar, as mesmas pessoas fazem um passado, alento imutável em minha memória, eu votara, e como outros trazia comigo uma mulher, era meu presente, e este fato fazia-me abrir uma variante para não ser um revival do passado. Qual animal voltava ao ninho, em tempo de crias, e pensava que aqui seria meu reduto definitivo, assim como de outras vezes também cremos, e fugimos, e não mais voltamos.
Esta insônia companheira dos pátrias, dos intelectuais dos boêmios, dos que não possuem um corpo cansado para dormir, somente o cérebro a metralhar velhas lembranças de filho pródigo, de um José.
E assim ía a tropeçar noite adentro, um personagem chamado Ray, ao seu redor as várias fases, velhos contos e memórias de além ser, de  “Devir miscigenavam com Hiromi, por todas paredes, a história não era mais minha mas nossa, éramos apenas um uno indivisível, em uma enorme tensão, em meio de torções tentando ser dois, mas todas as vezes nos perguntavam quem era um e quem era outro, em noss
s quadros, e explicávamos pacientes,  “somos apenas dois, sendo um, uma extensão de nosso ser ausente”.
Passaríamos então a pintar cartões postais? Pedaços retalhados de longínquos lugares nunca por nossos olhos vistos? Sairíamos a cata de deuses em cada ato representado. Asssim conscientes provocar uma avalanche de fatos, e atos conjugados, para um objetivo demarcado, a construção de nosso Centro Cultural, quantas vezes não me perguntei, se isto era apenas uma desculpa, ou apenas uma sobrevivência, mas me pegava não vendendo o terreno, não abrindo mão do conquistado, aquele lugar me era caro, eu já sonhara sua construção, visualizara cada pedra, e me perguntava:  “Haveria outro modo, outra forma de enganar minhas isões noturnas” ?
Qual fórmula ao espírito satisfaria, e sua adoção fosse total, eu demorava a me tornar um pintor, meu espírito espírito elástio, recusa um só destino. Assim eu interrompia o gesto, tornando-os um ato de intelecto, a “Gestalt” era para mim uma ponte, e nãoum objetio, uivava a lua, em minhas noites insones, queria contar cada história, cada estrada, cada amigo, e tudo ficava estratificado, na cor, e no gesto.
Assim foi que vendi tudo, carro, telefone e os papagaios, e fui em busca de meu Eldorado de ilusões, o qual dei o nome de 4a fase. Voltei para a rua, voltei para feira, a sentar numa calçada. Voltei ao passado em busca de um alicerce que me pudesse servir de arrimo. Sentir o povo, ouir seus sonhos, e recontá-los tal qual os ouvia. E fomos qual loucos, fomos em gesos rápidos, em cores fortes, recontar uma cidade,  “A Terra das Artes”.
As noites passaram a ser longas, e os olhos agitados, rolava por noites adentro a procura de um recanto obscuro, por onde pudesse passar uma solução. A Hiromi ía à Tv ,ser símbolo, e eu ,ia ao nosso sindicato ser dógma. Nosso ser era um ato filosófico, não físico, e voltávamos para casa,por caminhos mais longos, mais acidentados a cada dia, chegávamos mais tarde para nos completar, e  assim  dizia a Hiromi, em suas angustias:  “Continua porque gosta, assim queremos crer”. E a roda do destino continuava a girar, nossa Associação possuia agora 350 associados, em pouo tempo alcançamos 500, e nós éramos dois de seus braços,nosso sonho de um sindicato tupiniquim, era quase trágico, se não fosse cômico, íamos para a campanha das eleições diretas com três representantes, forneemos a mala direta utilizada, e o Marcelo Niestsche ganhava os méritos, o Takaoka era um amador.
Para a Pinacoteca enviamos um japonês mais esperto, e ao menos este soube usufruir das benesses, e nós voltamos à praça pública, para nos mostrar despojados artistas? Desciamos assim de um pedestal conquistando a duras penas, para entender porque nosso Sindicato não pegava. Começávamos o rpocesso mais perigoso de nossa uniào, enfrentar de novo a vida sem um rendimento fixo, viver de arte em uma terra estranha, com regras por nós desconhecidas. O insensível cotidiano das incertezas, sem um amanhã a despontar no horizonte. Agíamos como loucos, não fomos para o Guarujá, onde teríamos um emprego para executar o projeto  “Guildas do Guarujá” mas saímos para uma outra cidade, a projetar um outro projeto com outro povo, em outro lugar. Saímos a comprar um terreno que coubesse este sonho; compramos 1100m2, o máximo que conseguimos, em uma localização que fosse acessível e a partir daí a tentativa de construir. Fomos em busca de meios, fomos pintar coisas simples, falar uma linguagem popular, fomos a mostrar coisas que nada tinham de nosso, não éramos decoradores de paredes.
Perdemos nossos amigos, pois ao que tudo indicava cooptamos com o sistema, nossa 4a fase era um projeto tão louco que não tive coragem de procurar um patrocinador, era o começo de um final de anos de estrada e de loucuras, e neste espaço, reservamos um lugar para uma criança que começávamos a discutir se teríamos. e assim foi que interrompi meu trabalho na loja, pois não estava mais dentro dela ,meu balcão servia-me apenas para pensar em discursos estéticos, saira a procurar informações com o Marcelo Niestsche e com o Fábio Magalhães, com Aldemir Martins e L.P.Baravelli, meu universo não cabia mais dentro de uma loja de jeans. Nossa Associação me fez viajar para Santos, Campinas e guarujá em busca de novos associados, me via com discursos, que nada tinha a ver com nossa sobrevivência e nào renovei o contrato da loja, saímos de São Paulo, em uma quarta-feira de cinzas, um bom dia para mudar.
Quantas vezes a variante principal teve que ser modificada, ou abandonada, por força de circunstância, um ano passei na Pinacoteca do Estado, com debaes, para saber ciente, que a arte não é apenas um ícone bem executado, mas é algo maior que não se desaliena do autor, e o tempo se dilataa, e meu espaço crescia, e vi-me contradizendo-me ao afirmar ao Jos Luyten (crítico de arte) que não pretendia viver de arte. Repensei e mudei. Era um desafio e eu sou um aventureiro, o desafio é minha perdição.
Tempo e espaço, quão longe se dilatam pra marcar em suas extremidades o tempo percorrido e o espaço ocupado, com quadros, histórias vivas, recontadas, qual ditirambo a retalhar versos, trêmulos de vida carregados, sonhando fantasias de grandezas. Um dia fabriantes de sonhos, outras cidades e mulheres, depois projeto 3,4, eram todas figuras jogadas ao ar como confetes, ou serpentinas a piruetar em forma de um Sindicato, de uma Guilda de Guarujá. E tudo isto passado não mais podíamos ficar ali, não era este nosso destino, acreditávamos que éramos maiores e saímos em busca de nosso tamanho real.
Acreditávamos também por esta époa que o homem possui o tamanho que sonha ter, e nós sonhávamos mais alto, muito mais alto, queríamos um centro cultural, nosso, e saímos em busca dele, ali dentro do coração, ele já estava montado, mas como um escultor em frente ao meu material bruto, faltava tirar excessos, pois lá dentro, no meio do mármore, estava a dormir sua Afrodite. Iríamos esculpir nossa obra, bem ali onde as cobras fazem seus ninhos, fomos para a cidade das Artes, éramos dois Fenix a renascer em uma quarta-feira de cinzas. Os signos me perseguem.
Houve uma hora em que no Embu deparei-me com os semi-deuses, os homens que possuiam um estilo, um mercado,eram objetivos, homens para quem após arduos sacrifícios disciplinares, a crise acabara, ficando em seu lugar a certeza de ser um Deus, de poder ganhar, ser maior que os mortais, e em alguns, isto se media pela arrogância. Homens que à glória não mais interessavam, era apenas um complemento, de se pensar Deus, não posssuiam um desejo de ser novo, apenas o que tudo que fizessem vendesse. Já vira homens assim quando fora jogador de xadrez, eternos mestres de clubes, não homens de mundo, não homens de mundo, não homens em que o desafio fosse aceito, mas que em seu estilo ganhava 3 em cada 10, mantendo-se assim em uma eterna categoria especial sem sonhar nunca ser o melhor, homens bloqueados pelo dia a dia.
Mantemo-nos em meio deles, dois pixotes sem estilo, olhamos para cima, torcendo para que sentado na praça o público domingueiro  não nos jogassem amendoíns, e corremos ao Centro Cultural São Paulo, e desmarcamos nossa Exposição, que se chamaria  “Aceita-se Pipocas”,  faltou-nos coragem, não estávamos ainda preparados, faltava-nos ainda a técnica de raios, não éramos ainda Semi-Deuses. Impetuosidade de uma juventude envaideida pela ousadia, que ousa quebrar valores tradicionais, para em seu lugar dar vaga a dúvida, do ser e do estar, aplopético prazer do vibrar eterno, do moto-contínuo das paixões, foi assim o primeiro impato, de sentar em uma calçada, e lembrar que passara quinze anos, e nestas mesmas calçadas eu dormia embaixo de um plástico vermelho a espera de um novo dia, eu, a Márcia, o João, a pensar que no domingo seríamos felizes, passou!
As pessoas queriam coisas simples, gostos simples, gestos simples e isto não nos satisfazia, alguém tinha que mudar, camaleônicos mudamos, travestimo-nos de simplórios observadores do bucólico, das paixõesinocentes, de ousadia contida, sonhamos curtos em vôos limitados, era apenas um fazer técnico do belo, reproduzir em escala de consumo, para pessoas comuns sonharem-se felizes. Imiscuímo-nos em meio aos semi-deuses, e com nossos gestos limitados sentamos na praça, éramos ali sentados apenas uma atração mambembe, pois é assim que descem os semi-deuses na terra, fantasiados de palhaços dizendo sandices inompreendidas, com leve sabor de verdade, e uma pequena dose de riso.
Hiromi emagreceu, perdeu sua provável gravidez em um esforço de velocidade, coisas típicas de heroína que se mete a acompanhar os aventureiros em suas empreitadas cinematográficas, normalmente se rasgam e se arranham todas, em meio a espinheiros e crocodilos, e assim estava a Hiromi, em frangalhos, do peso da responsabilidade, do peso físico e o cansaço, corremos estes últimos meses, corremos como desesperados em busca de uma alternativa salvadora, fazíamos assim nosso destino, sentados em uma pequena praça, e sonhando possuir o tamanho do mundo.
Passamos a observar os semi-deuses, objetos de nossos estudos, queríamos que entrassem para nosso sindicato, afinal eram eles os profissionais para quem havíamos fundado, fui dar aulas para crianças carentes no CINC, era a guarda-mirim da cidade. Crendo dali poder formar alguns artistas. Eram 130 crianças desnutridas, e com muita fome, e foi assim minha primeira aula. “Existem apenas três formas na natureza, o cilindro, o triângulo e o círculo”. Fi-los copiar em seus papéis como cabeçalhos, e dei-lhes formas relaionadas com estes tópicos, muito pouco pode-se aproveitar, eu tinha tempo, a eternidade.
Fomos caminhando, na 2a aula disse-lhes como era provável o descobrimento da roda, disse-lhes ainda “Deus um dia chamou um anjo e disse-lhe: Vá ao mestre construtor e diga-lhe que me faça os mares, as aves, as montanhas, a luz, e seu anjo industrioso perguntou-lhe onde estava o desenho de tudo que Deus queria, o projeto, e o artista criador para dar a forma imaginada por Deus, pois só com este intermediário se poderia colocar a fabricar a produzir”. E era assim minhas aulas, enquanto a Hiromi pintava a cidade, a cada rua, cada casa foi por ela pintada, em dias quentes e corpos suados, mas a idade ía tomando forma em suas telas, era um salto pintar assim, como quem passeia por entre jardins, a mostrar-lhes uma animação de um provável Deus.
Olharam-nos, a princípio folclóricos, aos poucos mais sérios, atualmente preoupados, criamos nossos primeiros auxiliares, e começamos a ilustrar-lhes a respeito da 4a fase, vamos assim construindo nosso próximo sonho sob o lhar atento destes guardiões do saber. Voltamos a ser principiantes em pintura, no anseio de falar popularmente, alcançar uma linguagem, decodificar seus signos, ler seus símbolos, e remontá-los de forma a ser vendido, para compra de tijolos e cimento, pois tínhamos um castelo a construir. E foi assim o começo, fizemos quadros que nada tinha a er conosco, quadros técnicos, onde a emoção possível eraa contida, e dava lugar ao exercício, do fazer contínuo, do repetir a fórmula, até que polido e lapidado estivesse, em nosso frágil suporte de telas baratas, de algodão e suvinil, frágil suporte para tantos sonhos, saltamos de um artesanato renascentista ao industrial, uma escala louca de produção.
Era a dialética de nossa história, a causa encabeçando o efeito e o rio seguia seu curso, era tudo em função de vender em uma feira, sonhadoras folhinhas a ocupar paredes, lapidados cristais de cores vivas, não era forte seu suporte, a garantia era menor, e também o preço cobrado, éramos honestos, com um preço mínimo, era assim meu exorcismo, o de pensar que a cada dia podia pegar mais, e consequentemente fazer melhor.
Éramos operários padrões, trabalhávamos como mouros a pintar quadros para uma feira de artesanato, talves artistas do sobreviver. Éramos o símbolo de nosso sindicato, o Ezequiel deveria nos adorar, e todo orgulhoso deveria nos pensar um ideal sindical, e madrugadas afora a pensar quadros, a pensar coisas a disputar com os galos, quem acordava quem, era um cotidiano que não podia durar mais que uma fase, o lucro era muito pequeno, e não tínhamos como fazer greve, assim onstruí um  quadro que recompunha uma cidade medieval, tal qual seria Embu, só que barroca, mas era a cidade da Janine, sua figura ali pousada, qual uma bruxa a tomar beladona, ali, a ver a cidade tão sua, como do bispo, audaciosas se completavam, em fraco suporte, de pano, de madeira e suvinil, de p.V.A., era o suporte de um alquimista roto, em sua lojinha do 1o andar, no centro da cidade, a produzir cores e forma, a assustar suaves clones que por ali passavam, a pedir uma soma para sonhar. Nossa realidade era um paradoxo.
Ali em nosso cantinho, entre cerâmicas, casinhas de pinus e panelas velhas pintadas om neutrol, produzíamos nossos quadros, coloríamos aquele universo atarantado de loucuras, com neuroses a vista, era nossa panela de pressão, que a cada dia surgia uma desavença, por cliente, por um espaço, ou por causa alguma, a panela fervia, era um pesado cotidiano de seres humanos, e nós por supostos artistas, cabia-nos descrever.
Insônia, maldita companheira do intelectual, do candidato a Juca-Pato, herói nacional, um Pato Donald com padrão, do signo que se tornou significante do significado. Chamei um dia de vagabundo um artista expressionista, tal minha ira com seu gesto mal executado, faltava-lhe ritmo, era um suposto Semi-Deus, e ele se assustou, e quis correr do país, era um momento de raiva que passou e voltamos a ser bons amigos, mas ele não possuía o tamanho que dizia ter, e eu não lhe dedico o respeito que acha que merece, eo resultado foi que passou a pintar com mais cuidado, e mais limpo, valeu para alguma coisa.
Finalmente os Deuses reconheceram nossa Associação,depois de piquetes na Fundação Bienal, nos viram, olharam para baixo e deram-se conosco, era um momento de glória, ser recebido pelo Secretário da Cultura, o Digníssimo Sr. Jorge Cunha Lima, éramos um movimento representativo de uma utopia tupiniquim, éramos dinâmicos e eficientes como personagem de Chico Anisio, líderes da maior malta de loucos até hoje aqui reunidos, pensando serem Deuses, tal qual Netuno, ou uma Atenas, eram todos loucos diletantes do ofício artista.
Neste tempo, no Embu, um louco foi atropelado, e passou a usar gravata, foi trabalhar de ajudante de cozinha, como deve um louo um dia acordar? Eu próprio não sei. E fomos nós a envelopar correspondência, da Associação, era uma maneira de dizer ao mundo várias versões do mesmo fato, nesta utópica democraia de um país coca-cola, estávamos produzindo uma média de 4 quadros semanais, era uma exigência de nossa sobrevivência.
Era um trabalho de efeito fácil, de assimilação imediata, era exatamente o que sonhava os compradores do Embu, perguntávamos se era isto o que víamos ou se realmente era assim, e o público era que tinha razão, afinal a parede era deles, e por respeito ao livre arbítrio, podia eles optar pelo que melhor lhes aprouvesse, nossos amigos indignaram-se com nossa nova fase, mas indiferentes indiferentes continuamos a usar a máscara que propúnhamos, assim como fomos comerciantes, hoje éramos artistas de tempo integral, as máscaras se sucediam, a povoar minhas noites mal dormidas, madrugadas a ouvir Pink Floid e a correr em todas as direções para cobrir um custo operacional, a pensar que provavelmente logo viria ser pai.
Criar outro louco para correr mundo a cantar cânticos de sonhos desencontrados, e pintar tudo e a todos, sua história cotidiana, montar castelos, somar variantes desvairado, a contar estrelas ôcas, figuras de alumínio em fundo dourado, e íamos assim, a jogar fantasias pelo. Nossa produção aumentara assustadoramente, produzíamossignos já codificados, mensagens claras, falávamos às pessoas diretamente, tornei-me insone, as noites eu parava e punha-me a revisas fatos e atos, a planejar um próximo lance de uma partida, onde o prêmio era viver Deus. Quando tudo que queríamos era executar a fase 4, era muito pretencioso, um prédio que pudesse vir a ser um centro cultural, com jardins de esculturas, protegidos dos pombos para que não cagassem em cima, limpas para apressados turistasnão se sujarem, e não sujá-las ao comer cachorro-quente e a tomar coca-cola, tão pouco era nosso sonho, custáva-nos caro.
Nossos amigos sentiram-se traídos, todas aquelas máscaras lhes soavam falso, nosso Deus era de barro, indignaram-se, e assim estavam, enquanto eu jogava uma partida na terra dos Semi-Deuses. Era tanta a pressa que eu e Hiromi passamos a pintar a mesma tela, tal era a exatidão exigida, quadros as dezenas, a preços de atacado, foi assim encomendado, saímos a pintar.
A tudo isto éramos observados, se aproximavam de mansinho de medo de pormos tudo a perder. Disse-me minha consciência:  “Ray, tu fazes da arte uma prostituta! Faz de novo dela uma deusa”. Era uma voz irreal, na madrugada fria de um inverno, onde a geada tinha deixado minha montanha brana, e ali aquele heróio personagem encarcerado em liames filosóficos, lutavva como meu gato dormia ali a meu lado, a ronronar, ou caçar insetos voadores, em batalhas imaginárias. E meu gato jogava-se ao ar em batalhas imaginárias, a caça de uma vítima que nunca viera, em um tapete felpudo, parecia não ter sentido, eera o mesmo que a gente viver um sonho programado, um ato falho em busca de uma nova estética, ou em busca de um novo gesto, íamos em busca de nossa indentidade, hoje pintando idro, amanhã um bule, e frutas e mares, éramos Deuses a criar sem uma norma disciplinar, que se chamasse estilo, cada gesto descrevia um conceito estético, qualquer proposta era secundária, ao fato visível, nossos signos eram colocados com finalidades específicas.
Saía assim nossa nova fase, noites a fio, eram velhas estórias de bruxas, fadas e anjos,  todos ali representados, ali a meu lado meu gato ronronava a procura de carinho, e ele sentava em cima de meus papéis, como se a perguntar se valia a pena tantos papéis sujos de memórias, embaladas por Vangelis, e nós a pintar trigais e montanhas nevadas, apintar um colonial fotográfico, em gestos tão rápidos que tivemos que passar a usar espátula, e passamos a assinar H. Rodrigues, de vergonha, ou medo de assumir era nossa nova máscara, e assim contamos a saga do personagem H. Rodrigues, era apenas mais um braço de nossa Deusa Kali.
Velhos fantasmas exorcisei, a caça de ser Deus em apenas 4 fases, pois não havia escrito em lugar algum em quantas fases se tornava, não havia  em lugar algum uma fórmula escrita, porque estão não em uma ou duas? Como era difícil arrancar do peito as figuras que iriam povoar nosso universo! Um universo de tijolos, pedras, areia e homens, uma máquina movida à corações, e sem a tolerância obrigatória de mais, e menos 10%, não havia garantias, nem das componentes partes. Hiromi pintava a cidade, seu centro, seus arredores, e fazia assim sua parte de toda obra, enquanto meu gato ali na  porta, sentado, olha a luzado sol, seu Deus morno e aconchegante, e eu ao seu lado pensava se me era permitido voltar atrás. Começava a ficar com medo de escrever nossa atualidade, não me parecia mais definível que a um teorema, variantes trilhas, caminhos abertos em  perspectiva ao horizonte, alongavam-se, não possuia mais nem meu tempo de leituras, era um eterno cavar dinheiro, de não sei onde, minha vida era apenas uma empresa, e como tal estava sendo dirigida, em tempo de crise.
Era nosso primeiro ano, julho fazia um ano sem rendimento ou que não fosse da venda de quadros, queríamos festejar, e tempo? E dinheiro? Estávamos cansados tal qual um lojista após o primeiro semestre respirando fundo para dar início ao segundo ato.
Era tempo de palhaços e bailarinas, quadros grandes, eu precisava de espaço para compor minhas Valquírias, minha sonora sinfonia de ser só arte e nada maais ser.
Um ano se passara, da Cantareira ao Embu Terra das Artes. Qual fora meu saldo? Qual seria meu saldo? Como me perguntara um dia o Zeno, me perguntei agora. Sabendo que eu era apenas um louco a procura de um estilo com um pincel na mão, em rotos trajes, éramos duas figuras a contar uma saga de uma idade, em cânticos não tão alegres, não tão tristes.
A feira! Esta feira, ali os melhores artesãos plásticos se assim pode-se classificar um técnico em pintar uma série de quadros, e a capacidade de repetí-los infinitamente, quantas vezes ele for vendido, era assim a feira. Um lugar para se confundir um semi-Deus, mas eles nào estão ali, pois os que ali estào nào conseguem ficar em casa, a feira está no sangue, como é o caso do Takebayashi, do Elisu e do Yugi, poruqe ficam na feira? Todos os seus quadros são vendidos todas as semanas, mas não saem dali, marchands propuseram comprar todos os quadros que pintassem, se saíssem, mas não saem,mas sua parcela de tecnologia não lhes dá confiança necessária para irem embora. E ficam. Seriam maiores em outro lugar? Conseguiriam ser um Josan ou um Fernandes? É algo maior o que se passa com eles, muito mais complexo. Serão eternamente feirantes.
A feira, ali a venda é rápida, o quadro deve possuir uma leitura rápida, é tudo como se fosse em um leilão, dois, três segundos para a pessoa passar e ser atra’da pelo quadro, em um lote de dois ou três mil quadros, tudo isto leva a um primor “Gestáltico” a limpeza absoluta, um campo de análise psicológica.
A feira, ali prevalece o estilo pessoal do bom artesão, sua marca e o primor da execução do artesanato, cheguei a pensar que não deveria formar nenhum artista que não passasse um ano na feira, pensava na Idade Média, na feira da Holanda, seria assim, será que apenas recriamos as feiras Holandesas, e nada acrescentamos, ali nasceu a pintura de interiores, e aqui nasce o casario. O tempo dirá que o casario é uma pintura de feira, é um estilo de um tempo. Aqui na praça você começa a vender, se julga dono do gesto definitivo, de átomo passa por célula, depois parte do grande orpo, fica preso por um gesto que funciona, atrai, e torna-se um só elemento. O fazer e o vender. Não mais busca resposta, a certeza é absoluta.
Os quadros partem, voam, vendem-se em quantidades, não os contamos mais os filhos considerados, mas sim produtos! Produzidos em linha para o onsumo em massa. Íamos assim noite adentro em busca de um estilo para compor uma sinfonia, saiasm gritos, sons magistrais, marinhas grndiosas, eram temas tratados para serem música, pra conterem uma poesia, que as vezes a sentimos derritimadas, por saber não ser o quanto podíamos dar.
Assim nos parecia a feira, nossos quadros  não se encaixavam neste tempo, neste lugar, saltávamos como loucos de um tema a outro, de uma proposta de vanguarda ao fazer técnico decorativo, como se deve ser em uma feira, seres de gestos contidos. Queríamos entender e irmos embora, como se fora um passeio, e não era. Havia dias onde o coração parava, perigos cardíacos, havia algo a nos mover, e esta era a vontade de executar uma idéia proposta. Via surgir nosso castelo, cada peça adquirida era uma conquista, era uma luta onde não sabíamos dizer se era necessária, uma aventura pela aventura, não podíamos dormir, afinal o espetáculo tem que continuar, somos os historiadores de nós mesmos, a contar a estória de uma geração, nosso cordel tinha que continuar, mesmo que a continuação nos levasse a uma pira fúnebre, como em São José dos Campos, baleado.
Pessoas a passar frias, ou assustadas em frente ao nosso espaço-banca, a olhar aos estranhos ritos, como quais compunhamos nosso conteúdo e forma, aqui onde a teoria não passa de um poço no deserto, tão raro, quase impossível de divisar, é o espaço dos guardiões do que se sabe.

Era uma busca de um estilo simples e objetivo, um estilo pronta entrega, uma produção de 10 quadros por semana, algo ingênuo e limpo, e este seria decorativo. Assim como Takebayashi ou Elisu, verdadeiros gênios da objetividade, via um Rossi,  verdadeira máquina de produzir e vender, um Atílio, verdadeira indústria imobiliária de enormes casarões colonias, com cores chocantes, eram quadros gerados não mais como coração, mas sim como folhinhas para paredes de pessoas simples, uma indústria plástica a impor estilos e formas de vender barato.
E olhamos este rio de tintas a escorrer em nossa frente, boquiabertos, afoitos a vender um só quadro que indicasse-nos ser este o caminho, gritávamos um com o outro nervosos, em busca de uma razão, que bem pouco importava se certo ou errado, era apenas tensão, por um lugar melhor na feira, lugar este que acreditávamos que venderíamos mais, daríamos certo, dias loucos.
E caminhamos em busca de nosso santo Graal, com ou sem razão, a matarmo-nos por um ideal, os nossos quadros, o nosso tempo, e nosso futuro, e um ideal que pouco importava se certo ou errado, corríamos em busca de nós a gradação de Semi-Deus, éramos apenas dois, com a mania de ser um, um cântico escuro que entranhava nas dobras do tempo, a produzir sonhos, olhamos um para o outro e perguntamos:  “Fabricamos Sonhos”?
Quantos sim, quantos não nervosos, pela ânsia de vender, de vencer, de acreditar que o amanhã, nos será favorável, teríamos razão finalmente?
Capturamos um Semi-Deus, colocamo-o em nossa gaiola e pusemo-nos a estudá-lo, a dissecá-lo, aquele nervoso dinossauro, um pré-histórico nervoso e desageitado, passamos a olhar suas entranhas,  a verdade, e sua verdade, seu universo, dizia ele entre agoniado e místico: “Eu desci de um diso voador, fui construtor de pirâmides, estive na renascença, e hoje encarnei Jaldo Jones, um artista americano”. Quanto trabalho nos dá mantê-lo em uma jaula dourada, em nosso laboratório cahamado Senzala.
Massacrado pela feira, uma incógnita, no poder vender, até quanto sabíamos desta, até quando pensava nossos olhos verem o certo, do poder a da glória de um Semi-Deus, um produto perfeito em sua iconografia Gestáltica, eram partos doloridos. Mesmos porque a meu lado meu dinossauro urrava, do dolorido-colorido que era sua jaula, queria a rua, suas patas quase me esmagara, livrei-me delas.
De novo lembrara de S. J. dos Campos, as cicatrizes não me deixava esquecer, baleado em uma alameda florida, acordado ao som de tiros, o corpo caído, me vira em um  passado pesadelo, acordei? Não fora acordado, por Hiromi, que a porta guardava com a chave na mão, a dizer-me acorde, fume um, olhe sua terra, pense em sua mulher em busca de um filho, seu castelo e eu preciso de você. E fui, sentei em nosso terreno, sonhei nosso castelo, e calmo fui alimentar nosso dinosssauro, que se movimentava desajeitado, tentando se colocar em seu espaço, de maneira que ele sabia.
O incidente gera um mal estar, este mal estar de ser artista, um pêndulo social, a mostrar mazelas ou flores coloridas. E a fábrica não pode mais parar, os acionistas não saberiam entender, de uma idéia a uma conquista, quando sanue jorra, em um tabuleiro de xadrez, e aos acionistas a idéia era maior que um quadro, déramos partida em uma locomotiva, pesada era nossa 4a fase que correria solta, e agora saíra dos trilhos.
Maior era construir nossa sinfonia, maior ainda que ter um filho, este eterno adiado, por falta de espaço em nosso saber eterno, que nosso círculo roda a uma velocidade maior que os acontecimentos, cabía-nos prevê-lo e consertar antes de seu desabrochar. E noites adentro a discutir sobre feiras, sobre pessoas e fatos de um dia agitado em que nos fugira o sono, a procura de fórmulas-Plásticas-Gestálticas, uma forma que contasse, o quanto de dor e sofrimento era montado um sonho, reprisávamos fórmulas antigas de fazer tintas, de fazer telas, uma luta ingléria de desesperados.
Sonhando um dia colocar o que sabemos acima de nosso círculo, um bienal talvez, o que fazer com estas flores expostas em minha frente? Vasos interrogativos de um futuro talvez, ou apenas um passado traído por Deus.
Assim noites adentro em criações signográficas para codificar “Tempo e Espaço” uma dilatação, quanta energia era dispendida, a romper o cerco criado pelo vácuo, noite adentro me perguntava porque? Caminhava no vazio com os pés em falso, caminhando em busca de um futuro, espremido no passado, na eterna luta do tempo dilatando o espaço. O gesto nascia antes da intensão? Ou era a intensão precedendo o gesto? Procurava na noite um signo que ao mesmo tempo fosse significante, um estilo capaz de conter, para vender em uma feira algo que possuisse  um tamanho de uma bienal, era isto o prêmio? Uma medalha de latão, em uma parede de passado? E do fiz testemunhados por Marcelos? Ou Jacobs, ou mesmo Aldemires, a dizerem estes contemporâneos o quanto modifiquei os status quo, o quanto fui moderno enquanto aquela águia maldita dilacerava meu fígado.
Que tom sinfônico meu grito lascinante, que vermelho carmim tinha meu sangue, que obra encarnada por Ray e Hiromi, como foi feliz aquele casal.
Como era feliz o Caio Craco em seu castelo na serra da cantareira, pajeado por uma águia, a ditar palavras de modismos, dos últimos ismos, e vender livros novidades, era este nosso ideal? Não sabíamos, íamos noites adentro em busca de uma resposta, a pisar em buracos vácuos, a catar estrelas, signos de uma busca desesperada, caminhando ao lado de dinossauros e Semi-Deuses, a purificar nossos símbolos, para que possuísse uma dignidade, e possuir uma medalha de latão, e dizê-la insígnia de poder.
Hoje vai serdomingo,tomarei uma xíara de café com leite, comerei um ovo ozido e meio pãozinho bromato, irei até o centro, abrirei nosso atelier, montaremos nossa banca na feira, e lá exporemos nossas obras, e a diremos milagrosas, e de volta aos idos 60, seremos uma novidade gasta e rota, mas uma novidade, sempre haverá uma nova geração.
Tão rotineiro que nem meu gato levanta mais , e a ronronar como antigamente, a exigir seu quinhão de colo, seu lugar favorito, em cima de mim, a pensar que nos capturou, devemos em troca dar-lhe um tratamento real, e assim meu gato passa seus dias, a caçar ratos fictícios, encenando batalhas aéreas e fabulosas, por uma acarpetada, onde nem pulgas possuem um habitat, conseguia ele batalhas napoleônicas com apenas uma bolinha de ping pong.
Quem como nós se torna escravo de um destino forjado, moldado em função de uma proposta, que nem ao menos sabemos se podemos considerar como uma variante principal? O envolvimento de grandes homens causam grandes gestos, nossa pintura anda a procura de uma dimensào, de um gesto que seja definitivo, nossos quadros aumentam-se de tamanho, asssim como um Fernandes, um Josan, homens que o gesto possue uma função definida, um Nakagima, a certeza do acerto, a ausência total do risco, a certeza do vender, e nós não possuimos isto, nós jogamos, e eu os chamava artista muitas vezes, mesmo sabendo que a presença do artesão era maior que sua parcela de arte, mas não é isto que pede o mercado? Um gesto fechado em sua signografia, sua forma definida, um ícone?
Sentando no ano, por noites a fio, com um gato no colo, pensava se valia a pena morrer por tais idéias, enquanto a meu lado a Hiromi levava a mão ao queixo a imitar meu gesto pensativo, me dizendo a sorrir: “Não vou deixá-lo transformar-se em um bêbado, panaca! Você é panaca? Eu intelectual,
mergulhado em busca do saber plástico, do dogma, da dúvida, mergulhado até o pescoço a pensar em minha guilda Embu, a tropeçar em dinossauros, envolvido na construção de meu Palácio de Cristal, em pensar no Sr. Eifel, atropelhar Semi-Deuses, como me era difícil vencer mais o domingo enquanto com minha arquitetura procurava ver se Duramd tinha razão, se a arquitetura deveria possuir esta ojetividade prevista.
Sou! Sou panaca, caí em uma selva política, sem um instrumento de defesa, e grito de dor, a cada vez que sou atropelado, e se não sou um bom jogador não me safava, era preciso pensar rápido e frio, a Hiromi me jogara água fria no rosto, e mandou-me a sonhar um amnhã cheio de flores, e eu fui. Repetia-me ela, eu não procuro a felicidade, eu faço. Era ela uma fabricante de sonhos, enquanto eu apenas fornecia conteúdo, ela modulava a forma do que seria nosso parto.
Hoje vi um figurante sem púrpura, me pareceu um homem individado, preocupado om o futuro, como posso pensar no incêndio de Londres XVIII se aqui no alto de minha montanha o mundo desmoronava.
Cada gesto, cada ato, tornara um símbolo, e era seguido, éramos uma geração de incertezas, e quanto a nós, tentávamos criar uma ponte no final do caminho, para que à outra montanha chegasse-mos. Olhava um quadro de Inglês e perguntava se aquela geração conhecia a certeza, a minha criara o Rock, o computador e o sintético, e que será de uma geração senão memórias?
Memórias regadas de suor, de lágrimas, para contar uma fase com uma fidelidade fotográfica, de dois cobaias sociais, fazíamos assim nossas montagem, nossa equação binária, a olhos de uma rua inteira, a Hiromi era arte, uma humana arte de desafio, uma ode do destemor, o quanto esta criança de um metro e cinqüenta é uma mulher, uma postura de adulto, uma visão fotográfica do ver, de pintar o visto por cada transeunte, e eu ali do lado, um popeye sem um espinafre para me socorrer, para me fazer herói, nada! Apenas um doido rotamente vestido, razoavelmente alimentado, e com desejos reprimidos de consumir o poder e a glória de um pintor, em meu 1o andar, de um vazio no espaço.
E parava a pensar em tempo e espaço, sua concomitância de moto-contínuo, e nós! Ali na Rua Joaquim Santana a pintar, preocupado em o que fazer com o nosso dinossauro a se mexer desajeitadamente em nosso cômodo, explicar lógica àquele maguila, apaixonado por tudo que houvesse brilho, cheirasse ou tivesse sabor. O hoje, o ontem a ouvir  “Animals”. Um Arnold Laine são espaços demarcados na grande noite, do grande sonho, em que Deus apontou-me o dedo e disse:  “Ray, vá ao mundo cumprir com seu destino, vá para sua 4a tarefa, desça à terra dos Semi-Deuses”. Acorrentado ali fiquei a olhar meu fígado ser arrancado a golpes profundos, e quantas vezes não quis escrever o meu The End, mas estava preso meu pulso, eu era apenas um fato de estar enganado, eu podia estar em um engano, um desacerto de decodificação, aí eu criei o  “Deus dos Deserdados”, dos desamparados do destino, inspirados em Becaffumi. E ele me saíra Seven-Up, não possuia a seriedade necessária para um Juízo Final, aí eu pensei: “Poie é, Becaffumi não tomara coca-cola, nào se podia fazer um Deus sério, atrás de um carrinho de cachorro quente, ou atrás de um balcão de jeans.
E João Carlos me dizia: “Ray, o que lhe falta é talento, por que não pinta abstrato? Quem não sabe pintar, pinta abstrato”, e ria. Perguntei-lhe e o fundo de minhas calças poído de dez anos de sentado, a fazer e a criar algo que fosse meu, que não fosse Surrealismo ou Expressionismo, ou outro ismo qualquer, nào vale nada? Meus contrapontos, minha loucura, não vale nada?
Mas tudo porque eu tinha medo! Medo de me tornar humano, diminuta figura de papel, por maior que eu fosse herói, eu representava meu próprio personagem.
Sentia meu discurso crescer, via a necessidade do humano, do discurso humano abandonado,em outros tempos, e outros lugares percorridos, parte de mim foi ficando pelo caminho.
Chovia copiosamente e sem poesia, era uma água fria, minha companheira de noturnos divagos, olhares iluminados com lâmpadas incandescentes, a olhar se por ali haveria uma brecha, em todo escudo, que escondia um amanhã que nem ao menos sentia-me no direito de conquistaR.
Eu um micro-cosmo, sonhava um pulsar, tamanha era minha energia de procura ao macro-cosmo, saía a mostrar uma nova maneira de compor, um novo movimento, um movimento que a cada torção gerasse uma tensão, e este explodisse em energia, meus quadros possuiam força, eram assustadores.
Longos dias natalinos, a loucura do precisar vender, pois possuía um castelo a construir com tijolos, e estes estavam a tomar chuva no pátio de minha obra, havia ali telhas e caixa d’água, portas e janelas em minha garagem, todas a gritar, a querer seu todo indivisível chamado casa, era seu ser conjunto, seu corpo arquitetônico. Vender ou liquidar? Com este infinito estoque de marinhas, naturezas mortas, e coisas que um louco ali rabiscara, grafites de ditirambo, contando nossos dias e transformando tudo em massa corrida e cimento, tudo em função de um sonho, idiota.
O castelo era nosso tigre, ele nos mordia a bunda a cada vez que deixávamos de correr, teríamos de correr para sermos maiores, mas maiores, do que o que? Que tamanho tem um homem? Era meu infra-égo a responder, uma resposta que saía em emus gritos sucessivos, que tamanho podemos ter se cada passo que damos tropeçamos no amanhã, um amanhã de covas rasas, pois nosso ser comerciante sofria ansiedades, e se o mundo não gostasse de nossos quadros do projeto 4 ? Se nosso plano falhar, eu me provar sonhando a cem kilômetros da verdade, Fabricantes de Sonhos! Ou mero comerciante de fatos e atos humanos, era assim o prosseguimento de nossa sonora sinfonia, era assim nossos contrapontos.
Hiromi, quase um Semi-Deus, com toque de mida, e tudo vendíamos, uma quantidade de quarenta quadros no mês de novembro, cinquenta no mês de dezembro e vendíamos o ano todo. Enquanto em brumas escuras o tempo corria, e distendia em um fluir contínuo, em busca de espaço nos quadros em nossa vida.
E pela primeira vez vi-me de meia idade, a cumular capital para um amanhã, e eu  me assumia de chefe de família, aluta não acabara ainda no natal, o meu The End, estava atrasado, meu maquinista dormira na cabine, minha pipoca a muito havia se acabado. Vi-me de volta a meu complemento nacional, um humano genético, um filho, a soma de ser nós dois, nossa razão familiar. Meu dia a dia exigia somas cada vez maiores, e construção assim tão grande demandava tempo e espaço, me controcia a cada vez que um ou outro me esticava, por contorções agônicas me dilatava, em resposta ao impulso gerado, e os alicerces começavam a subir, onde ontem fora mato, blocos a subirem por rampas ingremes, areia, cimento e suor, eram usados como argamassa, uma caverna prisão, ou um centro cultural, de dois artistas que nem herdeiros possuiam.
Um aluno voltara a caça de um sonho perdido, e me perguntava se poderia ter aulas, e disse-lhe que sim, pois eu fora professor, para que? Se não fora apenas por simples vaidade, mas euconvencera uma classe, e pude lhes passar a localização da abertura, por onde os olhos veriam o paraízo, lhes mostrara como direcionar a loucura, e ser um louco racional, intervinha assim em suas vidas.
Que fazer quando o signo é descoberto, e sua linguagem alcança uma média de oito em dez, o homem é apenas uma mancha descolorida em busca de sua sua alma, seu santo Graal, pois se é preciso de uma razão para tamanha carga, torna-se pesado demais. Eu me sentia falando a uma juventude em seu grito primal, ali ao longo do quadro Catarina, ficava um outro quadro, o do anjo da guarda, ali ficavam dois signos a serem decodificados, ficavam a descoberto, cabia a quem dizer qual era o falso.
Quanto de mim era falso, quanto era planejado? Havia ali alguma realidade que não fosse do dia a dia, do vencer o aluguel do fim do mês? Ou blocos e pedreiros em movimento, a custar o que não possuia, os alicerces levaram todo nosso dinheiro, e eu precisava muito mais, e fui sercorretor de imóveis, intermediário entre uma artista e um japonês, louco entre dois gumes, necessitado como água no deserto, fui corretor em busca do que faltava-me e me movia qual marionete, movido por limiames monetários.
Nós tínhamos pressa de tudo, de ter um filho, de ter um lar, e de sermos felizes, pode-se ser feliz conscientemente? Com peças montadas, datadas e planejadas? Me via a andar pela casa nas pontas dos pés, a sorver um vinho, não acordar Hiromi, pois ela dormia, era madrugada, e ela sonhava com seu novo lar, em sua montanha.
Os gatos faziam amor em meu telhado, com muito barulho, quase tantos quanto faziam meus pensamentos, em busca de uma resposta, seria este meu caminho, seria esta minha variante, viver e pensar, contraponto que me consumia, crendo arauto de uma geração com tostões no bolso, tentando ser grande, queríamos nossa variante humana. Vendendo casas, quadros e a nós mesmos, nossa alma era pelo diabo recusada, dinheiro! Fomos nós em busca dele, onde quer que estivesse, a qualquer preço, íamos buscá -  lo.
Éramos aventureiros de uma vida cantada em fases. Éramos um Zumbi a caça de emoções, onde estivessem lá estávamos, tínhamos histórias demais, herança nefasta de dias de liberdade, histórias pessoais demais, meu interior clamava em altos brados, alforria, mas eu era um técnico a dominar emoções, internamente meu coração pulsava, externamente uma armadura de couro e ossos rugia dizendo limites, aprisionando espaços, forçando a um encolhimento dolorido, seria gritado, mas não fosse abafado, pela noite.
Como era inútil esta minha vida, visitando noite após noite, por fantasias de coisas passadas, sem função, nexo ou destino, vivia apenas uma ansiedade, não uma vida, era uma saga, este cinza cotidiano, este vácuo em que caminhava, noites adentro a ouvir gatos a fazer amor, almas perdidas na noite em convites a morte e ao abandono, enquanto vagava de um ao outro atelier, do centro à minha montanha, pela Rua São Luiz perfumada de damas da noite, em sua calma noturna, a pensar, a tentar responder um teorema chamado vida.
As paredes de nossa casa tomava forma, subia em busca dos céus, meu castelo! Eram peças infinitas, blocos infinitos, dinheiro infinito, enquanto o tempo passava, esgotava-me, eu chegara ao limite. Fui a andar por São Paulo, ver amigos, pedir dinheiro a parentes, buscar uma resposta, uma alternativa em que minha alma não fosse o preço, de volta ao Embu a pensar em portas e janelas,quadros família, e dinheiro, nada acabava, passara já um ano e alguns meses, e meu espaço, e ser, já estavam estourados, pensei em acabar com tudo, com meu casamento, com minha construção, carreira e jogar tudo por uma janela a que não olhasse nunca mais, e gritar fim.
Saía a pisar duro, com orgulho ferido, justiça, eu lutava com minha alma, meu ser humano contra meu ser mecânico, meu ser indivisível se atomizara. Fui a São Paulo a andar como rôbo, mecânico a procurar algo ou uma resposta, com as baterias arriadas, caminhava, olhando, com água a escorrer por meus ossos, um frio navalha, eu procurava uma resposta, porque? Rua Augusta e Jardinspercorridos, caminhara até o TBC, a caça de uma alternativa, que não fosse feminina, que fosse algo meu. O que era eu! Meu ser místico unitário, uno, não mais fragmentado, descobria finalmente, eu me tornara dois.
Possuía agora uma necessidade de produzir quimeras, coisas que saíssem fantasias, que saísse arte por arte, uma sonora sinfonia, de ser só arte, e nada mais ser. Sem signos, sem emblemas, sem emoção, eu não era Ad. Reinhart, não me satisfazia o sentido, o só fazer, o vazio. Ter perdido toda possibilidade de linguagem não me satisfaria,eu me encontrara fracionado, um erro no regime interno, e via meu cotidiano desmoronar enquanto meu pedreiro pedia madeira para um telhado, quem sabe me separo da Hiromi, quem sabe não teremos mais um filho, não mais seremos os mesmos, íamos ficando apenas. Era-me um teorema edipiano, um xeque ao rei, e ele louco a convocar a confrontaria, a tentar sair do xeque.
A noite em que me decidira se ficaria com Hiromi ou não, ela me diz: “Se vai levantar leva um cobertor, é noite e faz frio, e se fizes chá eu aceito um pouco”. Levei o cobertor e fiz um chá de camomila, ela dormira, saí e coloquei so fones de ouvido para não fazer barulho, enquanto decidia se ía embora, terminar tudo, e mudar, terminar meu casamento, sair de xeque, com algum orgulho. Me senti um perdedor. Mas os fatos me desmentiam, eu conseguira boas vitórias em minha vida, isto era um fato.
Medimos a vida por fatos ocorridos, caminhos com fatos, linhas demarcatórias entre o ir e o ficar, eu desenhara quimeras absurdas, dúvidas cotidianas, e estas decidiam meu futuro.
Desenhei meus nadas, espaços a ser percorridos. Tinha que acordar amanhã, era  uma segunda-feira e tinha que religar as caldeiras infinitas, energias volumosas, em escassos tempos, tinha eu uma montanha amover com homens e máquinas, remover a natureza em construção de um abrigo, nào passava de um ser humano, com humanas necessidades.
Recebido socorro meu barco volta a navegar, por entre recifes financeiros, mais madeira mais cimento, e as paredes buscam os céus, meu castelo já possui sua torre, e prestes a receber o teto, fui ao Pirajussara,  um bairro pobre, a caça de material mais barato, fui a todos os lugares em busca de tudo que fosse necessário, neste castelo de ferro e cimento.
Minha tese começara a ter sentido, vendíamos também em janeiro e fevereiro, cotinuávamos em espiral em busca do toque de midas, vendíamos já metade de nossa produção, chegávamos próximos de Bhrama , nosso ser se contaminara de ouro, materializamos metais, nossos sonhos realizavam-se, vendíamos sem um estilo, tão poucos fazem isto, quanto tempo era preciso para se tornar um semi-Deus. Era esta uma busca incessante, enquanto no Olimpo os semi-Deuses se atacavam a socos e pontapés, atrás de um balcão resistência, na padaria do Toninho, perguntara para o poder!
O vácuo me arrastava, insano e irresistível, era o fator humano este Sr. dos entre-meios, entre o começo e o fim, situava-se  o ser humano, e isto nos arrastava por corredeiras acidentadas. Era possível o ser não possuir importância alguma, e se a única realidade fosse o estar? Seria possível que a vanguarda não possuía força para alterar a realidade? Não possuísse o ciclo necessário à interferência? O redemoinho girava, e com isto demarcava uma trajetória, alheia a nós, alheia a nossa vontade, esta era uma geradora de fatos, insanos rodamos, rodávamos inconsequentes, batíamos em infinitas paredes, girávamos sabe-se lá para onde, até que alguém me perguntou: “Vale a pena ser artista? Passar fome, viver duro, pelas sargetas, sem um cheque especial, sem um cheque três estrelas, eu não ssaberia viver sem o melhor”. E contava-me casos infinitos de driblar o gerente do Itaú, com cheques do Bamerindus, na República dos Borrachudos, o tempo em que o cheque era o maior atleta do país, e neste tempo louco, qual era nosso preço? Que me seria de fato o objetivo de uma vida, e se Hiromi uma hora não subisse no palco? Se ela não decorasse seu papel, como ficaria nossa peça? Como encalhar em um entre-Ato idiota, podia ser na estréia, podia falhar em qualquer lugar, são os atos humanos.
Insanos e instáveis são os atos humanos, ficava-nos a disciplina de correr em busca de nossa morte, a construir para que ao menos um a memória ficasse, era a realidade de uma vida, arrastar sempre para o dia seguinte seu último dia, eternidade, um signo a caçar seu destino de símbolo, apenas mais um dia na eternidade, era tão pouco por uma vida tão longa, mas nada é fácil quando oito bilhões de pessoas querem consumir o mesmo produto, o mesmo fruto, de uma só árvore, nessa vida que é tão pequena e carrega tanta incerteza.
Era noite e os gansos davam seus gritos agônicos, noite afora a dizer estamos vivos, eu pensava em minha pequena família, nossos atos gerados,  espontâneos e sem razão, nossas sagas tinham de ser desenhadas, eu,  eos gansos, éramos figuras da noite, uma sinfonia a ecoar no vazio, uma desesperada  busca de não se estar só, esta sinfonia se prolonga por toda a noite, com coros de cachorros, a ladrarem, faltava silêncio na noite. Diziam-me que meu trabalho era felicidade, diabo de paraíso, porque dói tanto ser feliz, ou éramos nós que desafinávamos em nossos contrapontos? Saía desafinada, sem melodia, com apenas um desejo de acertar.
Tropeçamos na família, que saída? Fico em xeque, paro as máquinas e tudo emperra, parece que nunca mais vai funcionar, executar um rpojeto na terra das artes, um redirecionamento, para uma  trajetória ideal, uma volta no parafuso. Dez anos se passara da última vez que estive aqui,vivi, e ajudei em seu desenvolvimento, dez anos para uma decisão de voltar, e de novo instigar a mover peças, a compor uma ode de desencanto, vamos acordar, pois a caravana já é uma cidade, e como tal exige uma infra-estrutura, os nômades hoje são burgueses, e são os senhores comerciantes.
Dois homens devem estar acordados esta noite, pois creio que o Hugo também tinha seus claros, também ele tinha no viver ideal, e isto conflitava com o cotidiano familiar, ao menos o Espinardi escolheu a certeza do emprego, assim dorme, é uma cidade difícil, de homens difíceis, a construir a peça que será a decoração do amanhã em qualquer casa burguesa. Tornara desenhista de móveis o  Alcir, isto lhe calaria o coração e todos sonhamos sermos grandes, mas qual era o tamanho de um artista? Dormíamos Semi-Deuses, e acordávamos comerciantes.
Eu e meu gato, noturnas figuras a perambular, por uma casa vazia, a pedir respostas, sobre céus e terras, sobre vida e morte, e se estivéssemos vivendo a vida de uma maneira errada?
Noites em que a montanha se torna um vulto a nos assustar, em sombras friaas, e uivos noturnos, íamos nós a fabricar sonhos, e tecer teias coloridas e de preferência com alguma gota de orvalho, em busca de um Santo Graal, como faz meu amigo da casa de tintas Maranhão, a construir um templo, uma obra faraônica, Embu é uma fantasia hollywoodiana.
Cada dia mais dinheiro, menos saldo no banco, tempos de dívidas, e foi assim que fomos à disputa de um salão de artes, medir forças, para saber de nossascertezas, somos ou não artistas? Quanto nossas imagens são sólidas de mensagem, de forma, de signos e significantes?
Viviam os monstros sagrados da crítica, velhas carcaças a dormir entre a passagem de um quadro a outro, Deuses? Schemberg, Rossi e outros viriam, a lançar moda, a recusar de cada escultor desta cidade, seria realmente um acontecimento. Uma  aventura fantástica, era o que se estavam desenhando, com herói e vilões de verdade, movendo-se na idade, em busca de algo que não fosse o caviar oferecido pela Prefeitura. Em quanto tempo se transforma em semi-Deus?
Sentamos na feira, interferindo no ser e no estar das pessoas, íamos abrindo caminhos, abrindo picadas coloridas, era só ver os caminhos que percorremos nos quadros de Hiromi, era um objetivo sem tempo determinado, sem espaço que nos servisse de apoio, éramos sós em nosso propósito, um niilismo puro antecedeu a decisão de continuar, mesmo que só restos de coração habitasse o peito.
Vive-se de qualquer jeito, morre-se por qualquer frase, viver é apenas uma ruptura no tempo e no espaço.
Via assim a M.A.I.S. Embu sofrer sua primeira crise, sua diretoria não mais fazia uma unidade, havia ali disputa, não mais havia um ideal, descobrimos que a massa que moldara os semi-deuses, era a mesma nossa massa. Ciêntes que só problemas era, esta viela que chamamos destino, dirigíamos a ela com olhos abertos, senão como chamar Eldorado tamanha trajédia-trajetória? Um ano passara, e agora preparamos nossa mudança para os porões de nosso castelo, com torres de eternit, locadas em um buraco-palco, no Jardim Mascarenhas, ali onde sonhamos um castelo de cristal, surgir porões de blocos e telhas de eternit, por comum aordo eu e Hiromi decidimos chamar aquilo de nosso lar, era nosso filho, feio e desajeitado, era nosso filho, nossa cria.
Foi assim que ganhamos nossa primeira faixa de Semi-Deus, entramos com todos os quadros no salão de Embu, íamos provados para nossa quarta fase, planejávamos já nosso 2o ano, e este sofria os reajustes, de uma nova realidade, era preciso parar as máquinas, para a manutenção, desligar os fornos, parar os tornos, era uma orgia de atos e fatos, a serem analisados e tomados como prioritários planos, não se pára um carro a cem km por hora sem riscos.
Mas precisava, aí fui ler a resposta do Hugo sobre sua recusa no Salão, e ali vi quão pequenas são nossas derrotas cotidianas, alentado fui à luta.
A Rose crescera, e começara a montar seus próprios jogos, havia nisto vitória, tínhamos assim nossa noite de poesias, sua lauta festa de arranjos e acertos, era seu jogo, minhas estátuas não mais de mármore, pois estas já começavam a me abandonar, eu iria bater palmas.
Foi um sucesso, até o prefeito ali estava, uma noite de brilho, uma noite louca, foi assim que o teatro mágico se fez, abrindo o peito e repetindo frases que sua máscara ditava. Assim fabricamos máscaras pela cidade, o J. J. saíra crendo em Deus, e nós apenas míseros fabricantes de sonhos, a vender um sobrado na Rua Joaquim Santana, para o Sr. Hiroshi, era tudo peças que montadas teria de ter sentido. Troquei minha equipe de pedreiros, coloquei um mestre de obras, o Joca, para fazer meu castelo cumprir prazos, sem dinheiro, sonho-meta, nada mais que uma fantasia, muitos tigres corriam-me atrás, eu tinha que ser criativo,cumpria meu papel, e assim fazendo cumpria meu destino pré-concebido.
Eu sonho um dia dar um grito, aquele que me fica na garganta, quando em depressão, não tenho coragem, este me fica interrompido no gesto, na intensão, na cor que sai contrastes fortes, na cor eu grito, no físico não, tenho medo que o eco derrube meu castelo, e nada reste. Embu, Terra das Artes, aqui tudo se cria com avidez e fome.
A noite ficava eu  e meu gato a arranhar caixas de papelão para diminuir as garras, enquanto eu em folhas de papel, noite após noite, meu eu, inflava, eu tinha que me programar grande para ser grande, afinal não afirmava várias vezes que o hmem possui o tamanho que pensa ter? Corria em busca do nosso.
Uma casa nova, um ponto novo, um novo estilo de viver, uma vida que para que tivesse sentido, não apenas uma atração, um estar a frente de nós mesmos, para dar tempo de revisão, em caso de enganos.
Eu de novo parei em frente ao nosso manifesto e pensei se cresci, ou apenas vivi. Ouvindo Pink Floyd, revia um passado, preso ao triduo monesco onde eu era o rei momo, com falsos ouros, com falsos brilhantes, e ria a dizer que o mundo era meui reino, qual era hoje meu quadro? Vivi ou apenas cresci? Hoje, de meia idade, com incertezas, com alguns hiatos de dor, outros de fantasias, ser e estar, é a solidão humana, queríamos uma nova forma, um novo conteúdo, não estes vazios insolúveis, com certeza de morte.
Hoje sabíamos mais que ontem, e nossa certeza de ter vivido, eram as coisas que fizemos, as que atropelamos, em nossa ânsia de viver.
Nossos livros encaixotados, com medo de mudar, mas meus pés e meus atos já mudara, eram meus móveis e meus pertences que recusavam a fazê-lo, olhava meus quadros e pensava se minha luta era necessária.
Meus cheques já íam para as mãos dos agiotas, meu saldo estourado, meu castelo a pedir verbas, a imobiliária do S. Bassith a perguntar-me se os pagaria a todos, era assim meu agito monesco, e eu rei momo, usava minha barriga para rolar a dívida, a escrever um estudo para tese, tudo isto é necessário para viver? A cidade recebeu mais um empurrão, todos os escultores do Embu foram recusados no Salão, preparava-se uma guerra, dois grupos se engalfinham, o ambiente é de guerra civil, e nós olhamos, observamos para aprender. Agora mudamos para o nosso castelo, em nosso espaço, em nosso castelo sem piso, sem mármores, com portas emprestadas, janelas emperradas, mas nossa casa, um ano e quatro meses se passara entre o projeto criado e executado, devendo a todos, ocupamos, nossa casa temporária, pois isto aqui será apenas um atelier, em meu castelo. Paguei o Bassith, paguei a loja de material de construção, e corro para pagar minha irmã, olho aqui sentado em minha sala, e pergunto se isto é vitória?
Saímos e vemos em nossa volta uma pequena chácara no centro da cidade, a espera de ser um Centro Cultural, meu! Egoisticamente meu! Mas isto tudo não tem mais importância, porque aqui cai o pano, encerra-se o primeiro ato, público a aplaudir pediria a  volta do ator, se isto fosse possível, mas não é, não nos seria possível repetir de novo a peça, não repetimos as peças, outro ato é uma outra fase, e no momento escrevo o próximo ato, como Semi-Deus. Alçamos nosso grau de Semi-Deuses, pois tudo isto foi possível em um prazo de um ano e meio, os seres humanos normais demoram anos, e mais B. N. H.s,  caixas e pecúlios, nós levamos no peito a execução do plano 4 em prazo compatível com milagre, e se é milagre, trabalhou ali um Semi-Deus, ficamos um ano na feira, vendemos em um ano duzentos e setenta quadros, compramos nosso novo atelier, e saímos da feira, moramos em nossa casa, e passou-se um ano e meio, paguei todas as minhas dívidas, e pregamos em nosso peito, nossa insígnea de Semi-Deus, conhecemos o toque de midas, e isto não vale mais que valia antes, de nosso mergulho, quem sabe deve-se deixar o tempo correr.
Fui sentar em meu bosque, e olhar os pássaros, plantas crescerem, quem sabe algum dos habitantes do meu jardim possa responder, se isto nos dá o direito de sermos artistas.